Capítulo 4 Ascendentes de Domingos seção
4.2.1 Um preâmbulo crítico à vida dos Antonio José Primeiro e Segundo
(Reflexões sobre a correspondência do exílio)
Cerca de um século e meio após sua morte
Antonio José Meirelles I permanece sendo o mai enigmático dos ancestrais de
todos os ramos ligados aos Meirelles. Como pode um homem que influenciou tanto
um filho e um neto, mesmo sem conhecê-los, quase ser desconhecido de seus
bisnetos e trinetos? Por terem-no esquecido pouco se sabe hoje de seus dados
genealógicos que serão pesquisados posteriormente. Seus pensamentos e ações, no entanto ficaram
presentes no sangue de todos apenas no
coração e mente de alguns poucos de seus descendentes. Partes de eulogios
proferidos por alguns de seus amigos foram reunidos e são resumidos abaixo em
formato livre.
“Ele foi ao mesmo tempo um grande negociante
de escravos africanos e um estimulador praticante da miscigenação. Foi um
reformador que propugnava a industrialização.o comércio internacional livre e a
difusão universal de aulas de comércio e ciências. Era um conservador que defendia a monarquia
parlamentar e a expansão das artes. Foi
corajoso e implacável no embate com os
inimigos e também afável e doce com os cativos que negociou, educou,
libertou e foram uma fonte importante de
sua riqueza. Justo e sábio soube recompensar seus fiéis servidores, promoveu a
libertação de elementos servis e seus filhos, do mesmo modo que garantiu o
futuro de seu filho natural e homônimo mestiço.
Socialmente ativo e politicamente
atuante, fez de seu trabalho solitário um
monastério em que acolheu um grupo de
libertadores, que como formigas operárias discretamente construíram vetores de
desenvolvimento. Não conseguiu pleno impacto em seu intento por falta
competência e discernimento aos líderes do Império em compreender as tendências que ele anteviu
e a visão clara do que devia ser feito. Foi igualmente judicioso educador e
estimulador da Ciência tanto quanto sensível admirador e pequeno mecena das artes. Foi habilidoso,
firme, talentoso, encantador no trato social com aliados e duro, sardônico e
cruel na política e com seus inimigos. Isto custou-lhe a vida e a admiração de
muitos. E se não fez mais por muito mais
pessoas e ficou mais conhecido e reconhecido, pelo menos para aqueles poucos
que tocou fez muita e real diferença. “
Antonio José Meirelles Primeiro, um
homem de ação modernizadora que mergulhava intrepidamente em inovações e
empreitadas de risco, bem como um pensador direto, objetivo passou a pelo menos
um filho e neto o espírito de gestor eficaz.
Deixou escritos que foram preservados por seu filho Antonio José Meirelles
2, revistos por seu neto Domingos e depois destruídos com o passar do tempo. A
correspondência entre ambos em momento dramático de exílio pós-captura na
guerra civil serviu para que se resgatasse
parte de sua visão do mundo, pois eles o citavam com freqüência. Já o trabalho
de reescrever e salvar estas missivas foi realizado por meu pai Antonio
Ferreira da Silva Quintella. Neste trabalho procuro dar uma organização e um
sentido ao que restou.
O que se descobre na preciosa correspondência dos Meirelles,
apresentada em seguida, é a divisão dos abolicionistas em dois grupos, que são
também identificados na imprensa da época. A terminologia usada na correspondência
é diferente daquela usada na imprensa, que é muito variada. Desde Saquaremas e
Luzias, monarquistas e republicanos, Conservadores e liberais, etc... Devido à
variedade dos termos preferiu-se manter a terminologia dos missivistas, a
saber: Utópicos e Pragmáticos. Com as informações das cartas pretende-se
fazer uma tentativa de análise nova das correntes abolicionistas à
luz do conceito de Cultura.
As Origens do Conceito de Cultura
Todos os os fundadores da
Etnologia e Antropologia Científicas e mesmo os modernos fundadores das
aplicações organizacionais partilham o postulado da unidade do homem, cabendo
explicar a difícil questão desta unidade na diversidade perceptível na
realidade. Tres caminhos podem ser explorados: Um que privilegia a unidade e
minimiza a diversidade (escola puramente evolucionista), outra que privilegia a
diversidade relativizando e minimizando a possível unidade e a terceira mista (adotada
largamente nas organizações) evolucionista-difusionista reconhecendo e
estudando as múltiplas tentativas de soluções variadas em busca de
competitividade. Esta ùltima largamente utilizada pelo autor em Consultoria de
Transformação Organizacional na IBM e na sua firma de Consultoria.
A definição original de Edward Burnett Tylor
(1832-1917), o inventor do termo e fundador dos primeiros estudos
científicos e universalistas sobre o
tema no âmbito social é a seguinte:
Edward Burnett Tylor
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Edward Burnett Tylor
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Born
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Died
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2
January 1917 (aged 84)
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Nationality
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Fields
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Known for
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A definição original de Edward Burnett Tylor
(1832-1917), o inventor do termo e fundador dos primeiros estudos
científicos e universalistas sobre o
tema no âmbito social é a seguinte:
Cultura e Civilização, tomadas em seu sentido
etnológico mais vasto, são um conjunto complexo que inclui o conhecimento as
crenças, a arte, a moral, o direito, os
costumes e as outras capacidades e ou hábitos adquiridos pelo homem enquanto membros
da sociedade
“Culture is
that complex whole which includes knowledge, belief, art, morals, law, custom,
and any other capabilities and habits acquired by man as a member of
society" (Tylor 1924 [orig. 1871]:1). E o evolucionismo Cultural é
uma abordagem teórica que busca descrever e explicar processos de mudança de longo prazo.
.
Esta abordagem se
caracteriza por sua dimensão coletiva, ser dependente de aprendizagem, não
depender de hereditariedade biológica e ser
inconsciente.
Neste ponto se
assemelha ao conceito Berneano de Script
Individual, assim definido em Quintella:
Um roteiro ou plano de vida
subconsciente, concebido sob influência parental – ou outros transmissores de
Cultura-, baseado numa decisão de aceitação infantil precoce, reforçado pelos
pais – ou outros formadores de opinião- e justificado pelso evento
subsequentes, culminado com um fim previsível e previamente escolhido. O
somatório de scripts individuais e dos planos estratégicos pessoais de vida
(estes últimos elaborados racional, metódica e livremente) numa organização de
trabalho definem a cultura organizacional e
o destino do conjunto desta organização e de seus componentes.O
somatório destes itens dos cidadãos forja a cultura de uma nação. Numa
abordagem científica tem-se como premissa o livre arbítrio e o postulado de que
cada um é senhor de seu destino e capitão de sua alma, apesar de todas as
limitações físicas, biológicas,sociais.
Mas se fosse apenas um processo inexorável em que
tudo pudesse ser previsto a espécie humana
não passaria de um animal social, irracional como as formigas ou abelhas
ou cupins, ou não ultrapassaria a selvageria decorrente das patologias sociais
que destruíram vários grupos humanos (sociedades ou organizações de
trabalho.).
Além disto a definição Tyloriana se caracteriza
por:
a) compartilhar dos postulados Evolucionistas em virtude da fé que
deposita na capacidade humana de progredir;
b) aceitar a unidade psíquica da
humanidade pela constataçãodas semelhanças existentes nos grupos humanos muito
diferentes, alinhando-se com a filosofia Universalista;
c) considerar a totalidade dos aspectos e presentes em todas as sociedades
pela inclusão de estudos sobre os elementos materiais, simbólicos, corporais e
das sobrevivências culturais alinhando-se com as escolas Comparativistas.
d) Considerar que as diferenças entre primitivos e civilizados não era de
natureza, mas simplesmente de avanço no caminho de progresso cultural
alinhando-se com os Progressivistas e afastando-se do pensamento de
desumanização dos mais primitivos.
e) Reconhecer que nos contatos culturais trocas e adoções de caracteríticas
ocorrem criando semelhanças entre sociedades confirmando a validade de
investigação da hipótese Difusionista nos estudos de cultura.
No âmbito organizacional Tylor influenciou
profundamente a definição neodifusionista empregada em Engenharia de Produção e
Administração, combinando as contribuições de Leakey, Quintella, Schein e
Burke.
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Robert Leakey
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Heitor Quintella
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Edgar Schein
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W Warner
Burke
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Cultura é o conjunto de premissas e crenças básicas de
um grupo humano com objetivos comuns,
consituindo um sistema
de idéias aprendido ao longo
do tempo,como respostas internamente
integradoras na geração, adaptação, transferência e uso de produtos e processos bem
sucedidos na resolução de problemas condicionando formas de atuação inconsciente que se expressam por meio de padrões de
conduta, estrutura de autoridade, formas de exercício do poder, Valores,Visão
de si e do mundo, Sentido de missão, formas de premiação, padrões de comunicação,
símbolos, expressões materiais, artísticas, corporais que fundamentam sua
imagem, e gerenciam as mudanças
necessárias ao longo do tempo. (Ver figura abaixo)
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Metodologia Stratimidia de Análise e Gestão Cultural - 1998
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Este conjunto de idéias foram usados experimentalmente
neste trabalho para explicar o comportamento das correntes abolicionistas no
Brasil. No século XIX
A
escravidão no modelo de produção portugues implantado no Brasil atravessa todos
os níveis dos Sistemas Culturais Gerenciáveis
apresentados acima. NO entanto ele teve um
efeito deletério que inibe as mudanças adaptativas que implicou inicialmente
numa vantagem competitiva num ambiente pré-industrial, mas que provocou
profunda acomodação e uma perda competitividade, na era industrial decorrente da revolução científica. O sistema
de crenças gerado pelo ambiente católico, que já havia sido fator de desenvolvimento no
passado, naquele tempo foi o principal responsável por este atraso. Ele afetava
o sub-sistema de aprendizagem que excluía o ensino de Ciência e Tecnologia, que
por sua vez engessava o sistema produtivo
a produtos e processos chave baseados em agro pecuária e extrativismo tornando-o
refratário ao desenvolvimento de
qualquer inovação como forma de resolução dos problemas sociais. Desta forma os
traços culturais altamente variáveis ficam inibidos imobilizando o sub-sistema
gerador de mudanças e afastou-os dos processo produtivos industriais.
Nunca é demais lembrar que o
Brasil:
Era uma sociedade em que a escravidão como
prática, senão como valor, era amplamente aceita. Possuíam escravos não só os
barões do açúcar e do café. Possuíam-nos também os pequenos fazendeiros de Minas
Gerais, os pequenos comerciantes e burocratas das cidades, os padres seculares e as
ordens religiosas. Mais ainda: possuíam-nos os libertos. Negros
e mulatos que escapavam da escravidão compravam seu próprio escravo se para tal
dispusessem de recursos. A penetração do escravismo ia ainda mais a fundo: há
casos registrados de escravos que possuíam escravos. O escravismo penetrava na
própria cabeça escrava. Se, é certo que ninguém no Brasil queria ser escravo, é
também certo que muitos aceitavam a ideia de possuir escravo. —
José Murilo de Carvalho.
Mas Tylor influenciou os métodos de ensino e
pesquisa que preconizam o uso de modelos simplifificados de observação das
origens históricas, como se evidencia pela citação abaixo.
“Not merely as a
matter of curious research, but as an important practical guide to the
understanding of the present and the shaping of the future, the investigation
of the early development of civilization must be pushed on zealously. Every
possible avenue of knowledge must be explored, every door tried to see if it is
open. No kind of evidence need be left untouched on the score of remoteness or
complexity, of minuteness or triviality. The tendency of modern enquiry is more
and more towards the conclusion that if law is anywhere, it is everywhere. To
despair of what a conscientious collection and study of facts may lead to, and
to declare any problem insoluble because difficult and far off, is distinctly
to be on the wrong side in science; and he who will choose a hopeless task may
set himself to discover the limits of discovery.” [Tylor 1924 (orig. 1871):24]
Mas a mais importante contribuição de Tylor é criar a grande supremacia da
antropologia cultural sobre os demais sub-campos: biológico, arqueológico e
linguístico. Isto teve impactos importantes na gestão das empresas fazendo com
que a cultura organizacional passasse a ser objeto da atenção dos gerentes e
dos métodos de consultoria.
Estes
métodos é que foram aqui empregados experimentalmente para explicar a ação dos
grupos abolicionistas do século XIX.
Assim como as pessoas seguem diferentes.”ways of
life” em lugares e tempos diferentes, no âmbito das culturas sociais, bem como
descobrir o sentido e a razão desta diversidade, no âmbito das organizações
(seja de negócios, seja sem fins lucrativos) os modos distintos de se vivenciar
a cultura passaram a ser observados por meio de benchmarks, visando descobrir
que aspectos geram maior competitividade e eficácia na resolução de problemas,
permitindo a evolução e o progresso das empresas e das sociedades. Do ponto de
vista filosófico isto põe por terra a hipótese do degeneracionismo que
preconizava que algumas culturas originavam-se de um nível mais elevado e
regrediam para um nível mais baixo. Apesar de haver evidências de que algumas
culturas altas se originaram de níveis mais baixos de cultura não se demonstra
a ocorrência de degeneração. No modelo organizacional neo-difusionista o que se
propõe é explicar o fenômeno de mudança nas posições relativas entre culturas
organizacionais e sociais pela perda de competitividade resultante na
diminuição na eficácia de resolução de problemas por meio dos sistemas .culturais
gerenciáveis.
Observando-se a analogia física proposta pela hipótese cinemática do
modelo neo-difusionista expressa pela equação abaixo é que se explica por que
as culturas evoluem em velocidades vetoriais diferentes e têm DESEMPENHOS
DIFERENTES. Assim se um grupo humano (organização ou sociedade) não está
satisfeito com sua posição no espaço tempo-cultural ela pode buscar mecanismos para se transformar mudando
sua velocidade ou aceleração. Normalmente isto vinha sendo feito de maneira
intuitiva ou descontrolada. E a analogia física obedece à equação de cinemática
abaixo

O modelo organizacional diferiu das aplicações comuns
em sociedades, pois admite a gestão da mudança. Já em sociedades estuda-se o progresso tecno-econômico até de
nações, com uma atitude passiva de
considerar a Cultura como um dado que não pode, nem deve ser gerenciado. É ESTA
PREMISSA que justifica as ações
racionais de transformação usadas em pesquisa de ação pelas consultorias de transformação
empresarial e social que lidam com a
gestão da mudança cultural. Estas ações de trnasformação exigem o uso de
metodologias estruturadas com características próprias como a que se apresenta
em seguida;
Conceitua-se uma metodologia de ação de transformação
cultural na organização e em sociedade da forma abaixo:
O que se presume com boa chance
de acerto é que os abolicionistas pragmáticos estavam desenvolvendo alguns
esboços de métodos de transformação cultural, capaz de
promover a abolição de forma
organizada e gradual sem risco de ocorrência de grandes turbulências
socioeconômicas. Métodos de
transformação profunda que exigiam grande envolvimento pessoal dos transformadores até
o ponto da miscigenação. De uma certa forma eles parecem raciocinar de maneira
aproximada a uma analogia Física da Terceira lei de Newton, justificando sua
abordagem de transformação social gradativa, conforme as equações abaixo.
Mass of Transforming Group * Velocity of Transformation Process = Mass of part of the society transformed * Velocity of societal transformation
Nesta visão, pode-se imaginar que a situação que os pragmáticos queriam
evitar era aquela em que, pela analogia Física. Assim a razão entre
a energia transferida pelos grupos de transformação e a energia da parte transformada era
inversamente proporcional à razão entre massa
do grupo transformado e a massa do grupo transformador. O grupo Utópico
desejava uma transformação rápida sobre uma massa social grande. Enquanto isto o
grupo pragmático deseja uma transformação mais suave atuando em massas sociais
de tamanho gerenciável. Mas é claro que havia também os escravocratas que não queriam qualquer
mudança.

Neste trabalho usaram-se
este conceitos para entender as posturas dos abolicionistas no século XIX no
Brasil. A questão é descobrir como diferiam em sua visão. Ambos não tinham dúvida,
e não necessariamente a mesma vontade, sobre
se a abolição ocorreria. A divergência maior
era em como, com que velociade e quando isto ocorreria. Dois grupos eram
discutidos em família: o dos utópicos e o dos pragmáticos. A divergência entre
os dois grupos começa na própria declaração da Independência, vai se
aprofundando e acaba dominada pelos utópicos que precipitam a Queda da Monarquia
e a crise da Primeira República que os Pragmáticos queriam evitar. Como se verá
a seguir a proclamação da República foi um verdadeiro passo atrás, precipitado,
inconsequente que gerou uma crise sem precedentes na nossa história que acabou
ecoando até hoje nas instituições nacionais.
A Primeira República,
instalada apenas um ano após a Abolição atabalhoadamente declarada, vai de 1889
até a Revolução de 30. Tem dois momentos distintos: a República da Espada, até
1894, momento de consolidação do regime marcado pela presença dos militares no
poder, e República das Oligarquias, até 1930, período em que os civis da
escravocracia paulista ocupam o poder. Na República da Espada há um conflito
acirrado entre centralistas e federalistas. Os centralistas, em geral militares
positivistas do exército e elites agrárias predominantemente paulistas
misturadas com os abolicionistas utópicos, liderados pelo marechal Deodoro da
Fonseca, preconizavam um Estado forte, e
até certo ponto desejaram retardar a concretização da Abolição após a sua
declaração, tentando burlá-la. Os federalistas majoritariamente civis e militares da Marinha, Guarda Nacional e
Guarda Negra que representam as forças políticas e econômicas dominantes nos
Estados, principalmente do Rio Grande do Sul, Rio de Janeiro, Ceará e Bahia. Com
Floriano Peixoto instala a mais trágica ditadura em meio a revoltas
e Guerras Civis No Rio de
Janeiro, Rio Grande do Sul, Ceará e Bahia.
Na fase
da República das Oligarquias os
cafeicultores paulistas, que já detinham a hegemonia econômica, conseguem
também a hegemonia política debaixo de uma corruptocracia disseminada por todo
o tecido cultural da nação, que acabou persistindo até hoje, fazendo da
política paulista a mãe de todas as corrupções nacionais. Com Prudente de
Morais estabelece-se “política do café-com-leite”, alternando-se no poder
representantes do Partido Republicano Paulista (PRP) e do Partido Republicano
Mineiro (PRM). Mais adiante Campos Sales, amplia acordos políticos com mais oligarquias
locais criando a “política dos governadores”. Este período viu também grande
retrocesso econômico, cultural e técnico do país. Em particular, aqui reside a
maior segregação aos negros e pardos libertos que foram colocados em “seu
lugar”, a saber, nas favelas, sem educação e sem possibilidade de se
desenvolver socialmente. A cultura nacional dominada pelos abolicionistas
utópicos misturados com os escravocratas de diversos matizes instalou uma duradoura
discriminação institucionalizada e disfarçada.
O que se
procura evidenciar é que, em determinado momento, os utópicos reuniram grande massa transformadora e em
menos de um ano desencadearam uma grande transformação no sub-sistema de crenças,
e no sub-sistema produtivo, desequilibrando o grande sistema da Cultura nacional,
por não atuarem nos sub-sistemas de aprendizagem e de resolução de sistemas.
Com isto, os esforços graduais de libertação, que vinham ocorrendo há décadas pelos pragmáticos, foram inibidos
pela viscosidade gerada por espasmos utópicos e
não tiveram tempo de atingir a
massa crítica da sociedade para gerar uma sociedade de aberta progressivista.
O movimento
abolicionista
no Brasil se
inicia com a tentativa de abolição da escravidão indígena, em 1611 e a sua
abolição definitiva, pelo
Marquês de Pombal, durante o reinado de
D. José I.
Em 1798 ocorre a fracassada Conjuração Bahiana que pretendeu a independência da
Região e a erradicação da
escravidão em geral para negros e os poucos índios ainda
escravizados. Após a
Independência do Brasil, a movimentação
neste sentido estendeu-se por toda a duração do
Império. Alguns Negociantes ligados aos ingleses
como Antonio José Meirelles já haviam percebido que o ponto não era se a
abolição ocorreria um dia no Brasil, mas como e quando ela deveria ocorrer. Até
sua morte vários negociantes agrupados sob a égide de um abolicionismo
pragmático se articularam em torno de agir por conta própria criando condições
para que a Abolição ocorresse gradualmente, sem riscos de revoluções, sem
riscos de atraso econômico. Só em
1850, a causa ganha relevância, pois com a proibição de
importação e o início da Guerra econômica paulista contra o nordeste. E enfim assume
um
caráter verdadeiramente popular, a
partir de
1870, com
a crise que se seguiu à Guerra do Paraguai. Culminando, enfim, sem o menor
planejamento, sob pressão de escravocratas falidos
ressentidos, pozitivistas, republicanos,
revanchistas e de abolicionistas utópicos
inconsequentes todos com
impulsos auto
destrutivos que aproveitaram um momento de ausência do Imperador, com a
assinatura da
Lei Áurea de
13 de maio
de
1888, que extinguiu
a escravidão negra no Brasil, para um número pequeno de remanescentes
totalizando cerca de 700 mil escravos.
Os utópicos estavam presentes mesmo antes da vinda da
Família Real para o Rio de Janeiro. Havia antes da Invasão de Portugal
alguns
afrancesados que idolatravam a
Revolução francesa. Eles partilhavam o racismo Napoleônico que dizem
historiadores como Claude Ribbe ter sido grande inspirador de Hitler. Sua ação
genocida ocorreu
fortemente no Haiti, Guadalupe, Saint
Domingue, Martinica, Guiana e na perseguição de oficiais de origem negra. O
ministério napoleônico de 1800 era de racistas nostálgicos, adeptos
da ideologia
de preconceito de sangue
e da
superioridade branca. Sob a proteção do Cônsul e dedicada a Joséphine e foi
publicada uma obra prima da literatura pré-nazista de autoria de Baudry des
Lozières, intitulada Les ègarements du Negrophilisme – Os desvios do
negrofilismo. Os índios não escaparam da sanha assassina de Napoleão. Sob sua
ordem Louis de Noailles colheu em Cuba 600 boldogues para alimentá-los com
carne de indígenas em espetáculo público promovido por Rochambeau.
Causou
grande temor de ocorrer no Brasil uma revolta negra como a que foi liderada por
Toussaint Louverture. Os afrancesados foram inibidos inicialmente em sua
expressão, pois isto teria significado alta traição, enquanto durasse a Guerra
contra a França. Mas os afrancesados retornaram à carga lentamente após a vinda
da missão de Arte Francesa. Neste contexto não é surpreendente que
o
Conselheiro
Antônio Rodrigues Veloso de
Oliveira, o primeiro magistrado paulista, formado em Coimbra, tenha
dado
início a triste tradição de
advogados, sem
formação técnica nem
administrativa, dirigirem negócios de Estado. Este homem ocupou o posto de
Conselheiro no Reino e
foi uma das
primeiras vozes abolicionistas utópicas
do Brasil recém-independente.
Racista, preocupado
apenas em branquear a raça em São Paulo,
critica práticas correntes tanto de escravocratas, quanto de abolicionistas
pragmáticos e propõe a imigração das massas européias, flageladas pelo Terror
Napoleônico, sem qualquer plano de sustentação,
agregando ainda um triste arremedo de Lei do
Ventre Livre, que já era praticada
espontaneamente por Negociantes Pragmáticos. Deixa ele emergir claramente
seu espírito racista,
escravocrata e
agrário ao propor que, na impossibilidade do estabelecimento de correntes
migratórias contínuas, prosseguisse o comércio de escravos europeus brancos,
mas que a escravidão deste migrante fosse temporária por
dez anos e que, no Brasil, nascessem livres os
filhos dos escravos, sem qualquer medida de suporte a estes últimos. Nenhuma
palavra foi proferida sobre como preparar os libertos para Liberdade, nenhuma
palavra foi dita sobre como industrializar e modernizar o país, enfim uma idéia
delirante e retrógrada. Durante a Regência, ocorreu mais uma vez o fenômeno de
Lei que não Pega. Pois foi promulgada uma lei que proibia o tráfico de escravos
africanos para o país, que nunca foi aplicada, boicotada que foi pelos
escravocratas.
A Bill Aberdeen (1845), caindo no vácuo criado pela
expiração do tratado anglo brasileiro de tolerância causou pânico em
traficantes e proprietários de escravos e de terras distraídos, pois os pragmáticos
já estavam se preparando para o fim da escravidão. Com esta lei a Marinha
Britânica tinha o direito de apresar navios negreiros
nos sete mares e devolver a carga para a África
ou transferi-la para os navios britânicos. Isto, por incrível que pareça,
aumentou o volume de comércio e o preço de
escravos, pela antecipação de compras antes da implementação da medida. Além
disto alguns traficantes fizeram desembarques clandestinos até 1856.
A ameaça britânica provocou protestos em todas
as províncias, pois a escravidão era institucionalizada, fazia parte da
Cultura. Era apoiada até pela Igreja, que permitia que mesmo os padres tivessem
escravos, que a considerava necessária e
legítima. Em outras palavras criava-se aqui a
hipocrisia mais descarada, pois até escravos tinham escravos,
ninguém no
Brasil queria ser escravo, todavia muitos aceitavam a ideia de possuir escravos. Parece
muito com
a visão hipócrita dos
socialistas de todas as cores, que pregam suas idéias para os outros, mas
querem gozar das benesses do capitalismo, tão em vigor até hoje. E corretamente
todos no Império concordavam que a economia dependia do elemento servil como
força motriz. Por isso muitos conservadores, não pragmáticos, acusaram os
liberais de submissão a Coroa Britânica, iniciando uma esquizofrênica anglofobia,
baseada numa defesa imprópria e suicida da soberania e da segurança nacionais,
que iria prejudicar o desenvolvimento do país. A barbárie dos capitães civis,
cujos navios foram apresados pela Marinha Inglesa, fez com que algumas vezes preferissem
atirar ao mar seres humanos como se fossem cargas inertes.
Caio Prado Júnior aponta
que, em 1846, ingressaram no país 50.324
escravos, em 1848 60 mil. Há cálculos que desde o início do tráfico negreiro
até 1850 variando, desde 2,5 até 3,5 milhões de africanos cativos migraram à
força para o Brasil, dependendo do autor. A verdade é que não se sabe o número
ao certo.
Os pragmáticos conservadores convenceram D Pedro II, a
enfrentar as ameaças no Prata e no Chaco
aprofundando a aliança histórica, herdada dos portugueses com o Reino Unido. Em 1850, o Imperador, pressionado
externamente pela determinação do primeiro-ministro britânico Gladstone em
cumprir tratados com rigor e internamente pelos conservadores pragmáticos
apresentou ao parlamento a lei Eusébio de Queirós que estabelecia em seu artigo
3:
—"São autores do crime de importação, ou de
tentativa dessa importação, o dono, o capitão ou mestre, o piloto e o
contramestre da embarcação, e o sobrecarga. São cúmplices a equipagem, e os que
coadjuvarem o desembarque de escravos no território brasileiro de que concorrerem
para ocultar ao conhecimento da autoridade, ou para os subtrair à apreensão no
mar, ou em ato de desembarque sendo perseguida".
Os
conservadores ortodoxos apoiaram a ala pragmática na
abolição gradual, supondo poder manter a escravatura e a estrutura agrária de
produção e empurraram os liberais para a visão utópica. Foi assim que os
escravocratas paulistas promoveram e aceleraram
a decadência do Nordeste. A produção de açúcar estava em crise, e assim
foi estimulado o
tráfico interno de escravos para as novas regiões de cafeicultura. O
pretexto de
racionalizar o uso da mão de
obra escrava se baseava nos altos preços do elemento servil pela sua escassez.
Esta migração interna pode ser observada nos negócios da Família Vianna de São
Cristóvão Sergipe.
Bóris
Fausto estima que o tráfico interprovincial, de 1850 a 1888, deslocou de
100 a 200 mil escravos. Mas o esvaziamento descontentará os senhores de
escravos e de terras nordestinos, bem como os demais fazendeiros falidos, que
viraram abolicionistas utópicos.
Os abolicionistas utópicos esperavam também que, cessando o
fornecimento de escravos, a fonte geradora de elementos servis secasse– o que
não aconteceu, devido a força dos escravocratas. Todavia as várias epidemias de
malária,
as constantes fugas de escravos, seu baixo índice de reprodução, e a alforria
de muitos escravos, inclusive daqueles que lutaram na Guerra do Paraguai,
contribuíram sensivelmente para a diminuição da quantidade de escravos. Mas a
ação benéfica dos abolicionistas pragmáticos era insuficiente na libertação de
escravos bem preparados para o mercado lançando muito poucos no mercado. A
chegada de migrantes europeus brancos fez com que muitas regiões os escravos
negros
fossem substituídos abruptamente e
lançados na indigência. Algumas cidades em 1874 tinham 80% dos trabalhadores
rurais negros, e, em 1899, 7% de trabalhadores negros e 93% brancos.
Em 1870 62% dos escravos do Brasil estavam
concentrados em Minas, Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul e São Paulo. Dos 1
540 000 escravos, 955 109 encontravam-se nessas províncias. No norte e
nordeste, em razão de sua decadência econômica, havia apenas 584 891. Protestavam desde 1850 os
endividados fazendeiros do Norte, por terem
hipotecado suas
propriedades para especuladores e grandes traficantes - entre os quais muitos
portugueses, para aquisição de cativos africanos. Por isso mesmo no Norte houve
abolições por quase já não haver mais escravos, e.g. em
1884, o
Ceará e o
Amazonas
aboliram a escravidão em seus territórios.
Uma das justificativas para o fim da
importação de escravos a partir de 1850 era o temor de que se a proporção entre
escravos e livres aumentasse a «boa sociedade» correria «perigos gravíssimos».
Houve revoltas mal sucedidas no passado como a dos
Malês, em
Salvador, em 1835, que justificavam até certo ponto este temor.
A abolição em 1888,
sem planejamento, como não desejavam os pragmáticos trouxe graves problemas com
se vê nos relatos da época.
Andrade Figueira:
Os escravos fugiram em massa,
prejudicando não só os grandes interesses econômicos, mas também interesses de
segurança pública: houve mortes, houve ferimentos, houve invasão de
localidades, houve o terror derramado por todas as famílias, e aquela
importante província durante muitos meses permaneceu no terror mais aflitivo.
Felizmente os proprietários de São Paulo, compreenderam que, diante da inação
da Força Pública, melhor seria capitularem perante a desordem, e deram
liberdade aos escravos.
A "Venda" (estabelecimentocomercial
receptador dos bens furtados, nas fazendas, pelos escravos e
quilombolas)
não dorme: às horas mortas da noite vêm os quilombolas, os escravos fugidos e
acoutados nas florestas, trazer o tributo de suas depredações nas roças
vizinhas ou distantes ao vendelhão que apura nelas segunda colheita do que não
semeou, e, que tem, sempre de reserva, para os quilombolas, recursos de
alimentação de que eles não podem prescindir, e também, não raras vezes, a
pólvora e o chumbo para resistência no caso de ataques aos quilombos.
Everardo Vallim Pereira
de Souza:
“Segundo a previsão do Conselheiro
Antônio Prado, decretada de afogadilho a “Lei 13 de maio”, seus efeitos foram
os mais desastrosos. Os ex-escravos, habituados à tutela e curatela de seus
ex-senhores, debandaram em grande parte das fazendas e foram "tentar a
vida" nas cidades; tentame aquele que consistia em: aguardente aos litros,
miséria, crimes, enfermidades e morte prematura. Dois anos depois do decreto da
lei, talvez metade do novo elemento livre havia já desaparecido! Os fazendeiros
dificilmente encontravam "meieiros" que das lavouras quisessem cuidar.
Todos os serviços desorganizaram-se; tão grande foi o descalabro social. A
parte única de São Paulo que menos sofreu foi a que, antecipadamente, havia já
recebido alguma imigração estrangeira; O geral da Província perdeu quase toda a
safra de café por falta de colhedores!”
Conforme alertavam os pragmáticos, sem a necessária
educação ou treinamento em alguma profissão definida, sem preparação para a
industrialização que deveria suceder a economia agrícola, para a esmagadora
maioria dos escravos, a simples
emancipação jurídica nada alterou em seu status subalterno nem promoveu sua
cidadania nem sua ascensão social. Por outro lado não foi prevista nenhuma
medida compensatória para evitar a falência de todas as fazendas e o colapso da
economia. Os abolicionistas utópicos como cães hidrófobos suicidas pregaram
intensamente “Abolição sem indenização”, apoiados por jornalistas,
profissionais liberais e políticos que não possuíam propriedades rurais, foram atendidos. (Pimenta nos olhos dos outros é
refresco)
O desastre foi tão grande que até os movimentos de negros e
pardos ficaram insatisfeitos. Algumas
vezes a verdade é mais estranha que a ficção. A visão dos pragmáticos foi só
tardiamente bem recebida pelos movimentos negros. Vários movimentos só ao final
do século, e até hoje, se alinham com os pragmáticos considerando 1888 como um
golpe branco contra D Pedro II, dado
pelos escravistas paulistas, em desespero, aliados com os utópicos, para impedir a ascensão social dos pardos e
negros. O sucesso deste golpe se vê até hoje.
Campanha Abolicionista
Revista Ilustrada de de Agostini em 1880 sobre a campanha abolicionista
•
Após a proibição da escravidão:
Em
14 de
dezembro de
1890,
por decreto , em proposta feita por
Joaquim
Nabuco no ano de 1888,
Rui Barbosa, empossado em sua função de Ministro da
Fazenda, solicita a destruição de todos os livros de matrícula, documentos e
papéis referentes à escravidão existentes no Ministério da Fazenda, de modo a
impedir qualquer pesquisa naquele momento e posterior a ele que visasse a
indenização de ex-proprietários de escravos. No entanto, essa decisão só foi
efetivada em 13 de maio de
1891, na gestão de
Tristão de Alencar
Arapipe que, na ata do encontro que culminou em tal destruição, mandou
analisar a situação do escravo sob o ponto de vista jurídico um ano antes, e as
tendências abolicionistas naquela época. Rui Barbosa via na escravidão o maior
dos problemas do Brasil, não tolerando meios-termos quanto ao seu fim, a
exemplo das Leis do
Ventre Livre e do Sexagenário: se é para deixar de
existir a escravidão, que seja extinta por completo. O Ministro afirmava que,
se era par alguém ser indenizado, deveriam ser os próprios ex-escravos. Porém,
sabendo da impossibilidade desse acontecimento, a ideia de queimar seu acervo
teve início.
No ano de 1840, com apenas quinze anos de
idade, Dom Pedro II foi lançado à condição de Imperador do Brasil graças ao
expresso apoio dos liberais. Nessa época, a eclosão de revoltas em diferentes
partes do território brasileiro e a clara instabilidade política possibilitaram
sua chegada ao poder. Dali em diante, ele passaria a ser a mais importante
figura política do país por praticamente cinco décadas.
Para se manter tanto tempo no trono, o governo de Dom Pedro II teve habilidade
suficiente para negociar com as demandas políticas da época. De fato, tomando a
mesma origem dos partidos da época, percebeu que a divisão de poderes seria um
meio eficiente para que as antigas disputas fossem equilibradas. Não por acaso,
uma das mais célebres frases de teor político dessa época concluía que nada
poderia ser mais conservador do que um liberal no poder.
Esse quadro estável também deve ser atribuído à nova situação que a economia
brasileira experimentou. O aumento do consumo do café no mercado externo
transformou a cafeicultura no sustentáculo fundamental da nossa economia.
Mediante o fortalecimento da economia, observamos que o café teve grande
importância para o desenvolvimento dos centros urbanos e nos primeiros passos
que a economia industrial trilhou em terras brasileiras.
Vivendo seu auge entre 1850 e 1870, o regime imperial entrou em declínio com o
desenrolar de várias transformações. O fim do tráfico negreiro, a introdução da
mão de imigrante, as contendas com militares e religiosos e a manutenção do
escravismo foram questões fundamentais no abalo da monarquia. Paulatinamente,
membros das elites econômicas e intelectuais passaram a compreender a república
como um passo necessário para a modernização das instituições políticas
nacionais.
O primeiro golpe contundente contra D. Pedro II aconteceu no ano de 1888,
quando a princesa Isabel autorizou a libertação de todos os escravos. A partir
daí, o governo perdeu o favor dos escravocratas, último pilar que sustentava a
existência do poder imperial. No ano seguinte, o acirramento nas relações entre
o Exército e o Império foi suficiente para que um quase encoberto golpe militar
estabelecesse a proclamação do regime republicano no Brasil.
Percebe-se porém, que livres os ex-cativos encaminhavam-se para os grandes
centros urbanos causando uma explosão demográfica e uma série de problemas,
pois sem nenhum tipo de preparo a viver abaixo da linha de pobreza, porém
muitos fazendeiros tiveram suas fortunas abaladas e alguns chegaram a beira da
falência, pois estes dependiam primordialmente do trabalho gratuito que era prestado
pelos ex-escravos e no princípio não aceitavam a idéia de pagar aos
trabalhadores salários para que realizassem as atividades que antes adquiriram
muitos lucros com a exploração e opressão.
O efeito da abolição levou os libertos a travarem outra batalha, talvez mais
difícil e complexa, pois lutaram para integrar-se em uma sociedade
preconceituosa que os via ainda como uma mercadoria, a liberdade foi apenas o
primeiro passo na longa caminhada de sua trajetória rumo a conquista por
respeito e direitos. Refletindo sobre o processo abolicionista e toda a sua
trajetória para que se tornasse realidade observa-se o desgaste e o
enfraquecimento de um Estado, que mostrou-se omisso durante todo o período
oitocentista revelando uma imagem de derrota frente as dificuldades que os
libertos enfrentavam com uma sociedade pautada na desigualdade jurídica.
Na realidade a abolição não significou a total e imediata destruição da
ordem tradicional, pois o país permaneceu agrário e apoiava-se na exportação de
produtos tropicais, pois a classe senhorial foi profundamente afetada após a
abolição. A modernização econômica foi um processo lento possuindo um arcaísmo
onde apenas algumas áreas conseguiram um limitado processo apresentando os
contrastes além de uma frágil estrutura em meio a crises que comprometeram
durante muitos anos o desenvolvimento do país.
Na tabela abaixo
procurou-se reunir o que nas missivas dos Meirelles e na Imprensa da época
definia aproximadamente, com algumas restrições, o que poderia ser rotulado
como visões utópica e pragmática dos abolicionistas.
Pensamentos
dominantes nos Utópicos
|
Pensamentos dos Pragmáticos
|
Pouco ensino e de
baixa qualidade
|
Ensino Cientifico e
tecnologico
|
Lavoura
|
Industrialização
|
República
|
Monarquia parlamentar
|
Transição rápida e
total
|
Transição gradual
|
Judicialização da
questão
|
Visão Econômica da
questão
|
Afastamento dos
servos em despreparo
|
Preparação dos
servos para a libertação
|
Desconsideração
sobre funcionalidade
|
Manutenção da
estabilidade
|
Expansão do porte
do Estado
|
Expansão da livre
empresa
|
Leniência com a
corrupção
|
Lisura como
princípio de ação
|
Sem previsão e sem
planos
|
Planos flexíveis
|
Oferta de garantia
de impunidade
|
Justiça presente
|
Escravocratas
falidos revanchistas
|
Negociantes vitoriosos
visionários
|
Advogados Golpistas
corporativistas
|
Negociantes e
tecnicos
|
Militares
Pozitivistas
|
Guarda nacional e
Guarda negra
|
Brancos e Negros
escravos revoltados
|
Pardos e Negros adaptados
e libertos
|
Controle da
imprensa
|
Liberdade de
pensamento e expressão
|
Lânguidos
|
Energéticos
|
Racistas
|
Miscigenadores
|
Afrancesados
|
Pró-luso-britânicos
|
Autoritários
|
Equânimes
|
Valor da causa
maior que a Vida
|
Vida e Progresso
são a Causa
|
Populistas
|
Democratas
|
Demagogia
|
Prudência
|
Revolucionários inconseqüentes,
maiorias conservadoras
|
Minorias Conservadoras
e Liberais
|
Traiçoeiros
egocêntricos
|
Leais
Empreendedores Livres
|
Intolerantes
|
Tolerantes
|
Agressivos
militantes
|
Negociadores
incidentais
|
monopolistas
|
Competitivos livres
|
Retrógrados
|
Progressivistas
|
Apoio ao Exército
|
Apoio à Guarda
Nacional e Marinha
|
Hostilidade à
Guarda Negra
|
Apoio à Guarda
Negra
|
Radicais
|
Ponderados
|
Anglófobos
|
Plurialiancistas
|
Descrença na
capacidade dos negros
|
Crença na
Humanidade dos negros
|
Com estas
considerações é possível entender melhor a visão particular que pai e filho intercambiam na correspondência entre
os anos e 1893 e 1896, quando Domingos estava no exílio Uruguaio.
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Capítulo 4 Ascendentes de Domingos
seção 4.2.2 Um preâmbulo crítico à vida dos Antonio José Primeiro e Segundo (A
correspondência)
Um legado tanto romano quanto suevo que permeava todo o
substrato trasmontano, meio herético, meio pagão foi importante na formação da
personalidade cética de Antonio 1, admirador do papa Julio II, segundo ele
encarnação verdadeira do príncipe de Machiavelli. No norte de Portugal berço da nacionalidade, da resistência contra invasores e
sobrevivência do lastro cultural essencial sempre existiu uma sutil subjacente rejeição ao cristianismo. Ele
professava pelo menos dois princípios fundamentais do estoicismo. O primeiro
era aceitar o seu destino e viver sem conflito de acordo com os mores de seu
tempo. Ele sabia que o caminho dos mártires transformadores radicais não era
sua vocação. O segundo era a crença na igualdade dos homens. Contudo aceitava
que por acidente, desonestidade, incompetência, imprudência ou pura injustiça
alguns seres acabassem castigados com o cativeiro. Esta dualidade é que
permitia que convivesse de forma igual
com senhores e ter um bom trânsito com escravos. Num ambiente social turbulento ele conseguia
atuar pontualmente, sem alarde, de forma sutilmente tolerável, na transformação
infinitesimal de um mundo brutal numa coletividade intransigente. Isto o fez
bastante popular em alguns setores, mas odiado em outros, num tempo em que isso era uma faca de dois
gumes, sendo ao mesmo tempo maldição e bênção, despertando tanto inveja quanto
admiração, angariando ora amizades ora inimizades. Prosperou como poucos,
beneficiou a muitos e deixou uma descendência numerosa e influente. Todavia
deixava transparecer sempre algum remorso, revelando em família que
procurava evitar e diminuir a vergonha da desumanidade da escravatura,
mas não esperava muitos elogios, nem reconhecimento. Esta sua postura acabou
provando que é possível contribuir para o progresso sem ser destrutivo, mesmo
num regime de privilégios para alguns e despotismo para outros. Evidentemente
não teria sucesso se não exibisse grande dedicação, trabalho árduo, habilidade
de conviver entre senhores e nobres sem perder a naturalidade e entre cativos
sem medo ou sem se degradar e finalmente por ter uma preocupação constante com
o futuro.
A ”PAX LUSO-BRASILICA”
nesta época era delicada e perigosa, constantemente sacudida por guerras e
revoltas, permitia somente isto: que alguém como Antonio fosse apenas
sabiamente um pouco melhor que os perversos ao seu redor. Isto era essencial
para sobreviver num sistema de hipocrisia social e violência institucional
sufocante de falsa religiosidade cristã. Ele percebia todo este quadro,
destoante do que acontecia na Inglaterra, potência central do dia, como um
sinal inequívoco de que o regime estava
caminhando para um inevitável atraso e um possível colapso ou desmembramento do
reino em várias nações, a exemplo do que acontecia na América Espanhola.
Acalentava na verdade um desejo discreto de que esta separação das grandes
regiões do Brasil acontecesse, pacificamente, federativamente, pois isto
aceleraria os negócios em geral e traria a oportunidade de que pelo menos
algumas das regiões se afastassem do ambiente tóxico e retrógrado da
escravatura.
Muito perceptivo ele sabia que a força motriz da nação era a mão de obra escrava. Sabia da
grande quantidade de servos. Tinha consciência da revolta potencial latente que
ameaçava a segurança de todos. Por isso tinha muito tato e cuidado na condução
de seus relacionamentos e negócios com o elemento servil. Por tudo isto,
pode-se dizer que o tempo presenteou
Sinhô Tomzé com o grande desafio de navegar por momentos incertos e
traiçoeiros sem no íntimo comprometer seus valores, mantendo a honra ao subir
na vida graças a seus negócios, no seio de uma estrutura produtiva sórdida em
seus alicerces. Ele percebia com clareza que a liberdade ia muito além de tirar
os grilhões dos escravos. Isto, se feito irresponsavelmente, teria não só
impacto destrutivo na economia e poderia lançar o país na guerra civil, mas
criaria cidadãos de segunda classe. Ele
sabia que era necessário educar os escravos para a liberdade em um mundo cada
vez mais dependente de conhecimento de Ciência e Tecnologia. Ele sabia que era
necessário preparar os escravos para
competir num mercado de trabalho como cidadão livre e conseguir uma vida digna
para realizar seus sonhos. Esta ação
prática permitiu que milhares de escravos fossem libertos, ao longo de décadas,
o ódio latente entre senhores e escravos diminuindo a tensão social a um ponto em que as
transformações pudessem ocorrer de forma racional, sem contragolpes decisivos,
sem revoluções sangrentas. Com sua ação
de formiguinha libertadora, com simpatia e alegria, agregou em torno da idéia
libertadora racional outros negociantes e lideranças incipientes entre escravos
e alforriados. Conseguiu assim abrir corações, mentes e portas de negociantes e também as pernas de
escravas e sinhazinhas para uma efetiva piecemeal
social engineering. Mas isto atraiu sobre si também o ódio tanto dos
abolicionistas utópicos, que irresponsavelmente queriam lançar o país no
abismo, e dos escravagistas que queriam só se locupletar condenando o país ao
atraso. O Clube das Formigas, associação secreta de negociantes portugueses,
brasileiros e ingleses, alguns dos quais eram maçons, usava ora a formiga ora
um círculo de formigas como símbolo de sua
ação libertadora, eficaz, pontual de preparação de escravos para a liberdade e
apoio ao seu crescimento social. Tomzé e seu filho foram guardiões dos poucos
papéis que restaram deste discreto clube (inspirado na fábula La cigale et la
fourmi de La Fontaine) que fez alguma diferença discreta na Paz Social do
Império. O bom coração de Tomzé e sua boa cabeça foram uma combinação de
sucesso que fez a diferença neste mundo, especialmente para seus descendentes.
Eram famosas frases suas que vararam os tempos: “ Ora raios! É só olhar e ver que
estes escravos são gente. E é sabido que nasceram livres lá em sua terra, como
é a natureza de todos os homens. Não é
preciso uma lei para declarar que escravos são homens. Basta educá-los e prepará-los para serem homens livres. Ódio
e amor são aprendidos e só pela educação se faz o amor vencer o ódio. Estudar
as Ciências é o maior ato libertador e de de rebeldia” Tomzé
conquistava os bons por estar sempre disposto a mudar suas opiniões diante de
novas evidências, os inteligentes por levar em consideração as novas
descobertas e invenções e os honestos por estar sempre disposto a ouvir
críticas e dialogar.
Esta é uma possível
imagem de Maria Leonor da Guia, encontrada nos arquivos de família. Ela era mãe
de Antonio 2º filho natural de Tomzé. Maria Leonor era nascida em Mangaratiba e
supõe-se que era mestiça, todavia se efetivamente for a parda identificada na
certidão pode tanto ser descendente de africanos como de silvícolas. Pela
aparência desta imagem tanto pode ser mulata clara quanto cabocla. Vem daí uma
das origens mestiças da família. A outra está nos Amaral. Para entender a vida
de Tomzé convém compreender algumas características da Escravidão colonial na
Américas. Inicialmente a escravidão ainda existe no mundo apesar de todas as
leis já promulgadas. Nas tabelas abaixo
pode-se constatar estes números.
Eis alguns
fatos históricos sobre a escravidão mais recente.
De 1451 a a
1867 tráfico transatlântico para Europa e Américas 12 milhões de pessoas.
De 900 a 1900
tráfico transaariano e transindico por islâmicos 12 milhões de pessoas.
De 1453 a
1920 de islâmico mediterrâneo-eurasiano 3 milhões de pessoas.
Hoje há cerca de 30 milhões de escravos no
mundo dentre os quais as modalidades mais freqüentes são: crianças no tráfico
de drogas e nas guerras, casamentos forçados, endividados,trabalhadores sem
qualificação forçados a trabalhar, prostituição forçada gerando mais de 38 Bi US$ de lucros em 2012.
Apesar de todos os esforços a escravidão resiste ao tempo e
às transformações sociais. Em parte isto se deve ao cultivo que se faz
sistematicamente de um fanatismo do tipo B, que é disfarçado e distinto do tipo
A, que é irritadiço quase hidrófobo como o dos muçulmanos. Este tipo de
fanatismo B é próprio dos medíocres, sem luz ou pensamento próprios e se alinha com ideologias, com causas
coletivas utópicas,
espíritos revolucionários destrutivos
que desconhecem totalmente qualquer individualidade. Militantes através dos tempos têm enganado e idiotizado as massas entregando-se
ao egoísmo grupal de algumas causas genéricas como liberdade, igualdade,
fraternidade, abolição, justiça, patriotismo, etc... Mas na verdade esses
fanáticos Tipo B não agregam valor a essas causas, nem tais causas agregam
automaticamente valor aos militantes. O que eles realmente querem é saquear e
se apropriar dos bens alheios, servindo—se, é claro, de uma massa de manobra de
militontos e de idiotas úteis que, como
buchas de canhão, não sabem exatamente o que estão fazendo. Assim perde-se a
substância, a essência e a virtude das próprias causas. Muitos dos líderes
destas causas eram pessoas com graves patologias, que criavam dificuldades de
manter transações saudáveis e
deficiências emocionais que impediram seu amadurecimento e os
incapacitaram para a vida familiar e para as responsabilidades econômicas
estáveis. (Isto sem falar que muitos eram sádicos, pedófilos, dementes,
cínicos, compulsivamente mentirosos.) Para fugir deste quadro patológico, ao
invés de buscar um equilíbrio de
personalidade saudável, mergulham a fundo numa idealização de pompa e
circunstância para si mesmos, que
hipnotiza mentes fragilizadas e as transforma em militantes e revolucionários
cegos idólatras do culto a personalidade. O Brasil colonial e imperial tinha
ambos os tipos em pequenas quantidades que proliferaram na República.
Antonio José Meirelles 1º
era um puro cético - pragmático que via ser uma falácia o movimento
revolucionário abolicionista e procurou agir independentemente, minorando os
males dos escravos a que tinha acesso, correndo grande risco de rejeição e de
perseguição pelos falcões escravocratas, o que acabou resultando num fim
trágico para si e seu irmão. Por outro lado havia percebido que não fazia
sentido apoiar ações revolucionárias mal pensadas. Ele inaugurou em família um
sentimento de aversão e desprezo por movimentos revolucionários, como os da
Revolução Francesa – eram todos visceralmente anti-bonapartistas. Seu convívio com ingleses moldou por fim uma visão fundamentadamente negativa
da Revolução Francesa, como um delírio que desaguou em um banho de sangue e na
ditadura assassina e genocida napoleônica. Admirava e influenciou grande parte
da família nesta admiração pela
transformação gradual e descentralizadora de poder típicas da cultura
anglo-saxônica. Neste contexto é que se pode entender algumas desmistificações
que ele apontou para seus descendentes, justificando sua ação pontual restrita
à melhoria das condições de vida dos escravos ao seu alcance.
Eis alguns
mitos e fatos sobre a escravidão colonial que constituiram o cenário em que Tomzé
viveu.
Mito
: A
escravidão é um produto do sistema capitalista iniciado pela Inglaterra e um
produto da Civilização Ocidental.
Fato: A escravidão é tão ou
mais antiga que os registros históricos e universalmente presentes, Portugal
foi a potência pioneira nas navegações e na escravização tanto de indígenas
quanto de africanos migrados para as Américas.
Mito: Fora da cultura ocidental a
escravidão era benigna
Fato: Nestas culturas orientais
não havia contenção para evitar tortura, abuso sexual e assassinato
sistemáticos, sendo muito mais brutal e duradoura
Mito: Escravatura sempre foi baseada
em racismo.
Fato: Só a partir do século XV
é que a escravidão se restringiu aos africanos e pelos europeus
Mito: Europeus capturavam diretamente
escravos na África
Fato: A maioria
esmagadora dos escravos era capturada por Africanos ou árabes em ações bélicas.
Mito: Os escravos sofriam lavagem
cerebral e quebra de ligações com seu torrão natal para remoção de sua herança cultural e torná-los
dóceis e passivos para serem adaptados aos traços culturais de seus senhores.
Fato: Apesar de alguns terem
aceito a nova cultura e mesclado seus traços com a dos dominadores, houve
centenas de rebeliões tanto de indígenas quanto de africanos e todavia muito
contribuíram para a formação de todas as
culturas atuais das Américas. O colorido de sua influência se percebe em música,
dança, decoração, design, cozinha, religião e folclore.
Mito: A maioria dos escravos estava
nos Estados Unidos
Fato: 90 % dos escravos
estavam no Caribe e América do Sul com
predominância do Brasil (35%)
Mito: A escravidão desempenhou um
papel marginal nas Américas
Fato: A escravidão Africana em
substituição à escravidão dos silvícolas eram o único remédio para a
escassez de mão de obra existente nos domínios europeus. Fato: A escravidão tornou em negócio
altamente lucrativo a mineração de metais preciosos, a produção de açúcar e aguardente, índigo e tabaco; escravos tanto
indígenas como africanos ensinaram aos europeus
como cultivar e consumir batatas, tubérculos nativos como aipim, inhame,
cará etc..., feijão, índigo etc...
Mito: A vida de “Plantation” com sua
dureza, instabilidade familiar, alta taxa de mortalidade, dificultava a
construção de laços sociais.
Fato: Nações africanas e
silvícolas persistiram nas Américas em todo o
século XVIII e mesmo em parte do século XIX.
Como Antonio José 1º previra em seu tempo a abolição estava
condenada a ser incompleta no Brasil, por falta de ações afirmativas concretas
e gerais. Ele tinha a consciência de que a solução de macro-problemas exigia
uma abordagem científica de subdivisão do mesmo em subproblemas de menor porte.
O que não estava sequer sendo pensado pelos republicanos e pelos abolicionistas
utópicos. Daí derivam várias de suas posturas políticas conflitantes com as das
classes senhoriais do século XIX no Brasil, a saber: apoio a descentralização
de poder pela autonomia das províncias, prática
de ações pontuais cidadãs sem a formalização legal ou judiciária mas capazes de
formar uma jurisprudência o longo do tempo, inclinação para resolução de
conflitos pela negociação, suporte a diminuição da escala e extensão de
controle do governo central visando estimular iniciativas locais e individuais,
etc.... Várias destas idéias-raiz oriundas de Antonio José 1º permearam o
pensamento familiar por dois séculos e perduram até hoje silenciosamente.
Como ele antevira, se a abolição fosse feita de forma não
planejada a libertação seria incompleta. A abolição final em 1888 lançou cerca
de 800 mil escravos na indigência. E apesar de muitos milhares, (estima-se o
triplo) já estarem libertos, miscigenados e encaminhados para sua realização e ascensão
social, esta massa de escravos veio a constituir o lumpen proletariat da
República. Graças a esta precipitação os indicadores sociais brasileiros ainda
hoje comprovam que os negros são mais mal assistidos que a população de origem
européia ou parda. Hoje mais de 100 anos depois da Abolição a população negra
têm 1,6 ano de estudo a menos que a branca; representa 65,1% das vítimas de
homicídios; e sustenta taxa de mortalidade infantil 60% maior que a da
população de origem européia ou parda. O racismo foi terrivelmente cruel na
República Velha. Era quase como vingança dos escravocratas pela libertação atabalhoada
– diga-se de passagem feita pela monarquia impulsionada tanto por progressistas
quanto por abolicionistas utópicos- que acabou resultando na queda do regime já
abalado irremediavelmente pela Guerra do Paraguai. Não foi criado um código
para o negro, como nos EE UU ou África do Sul, mas o apartheid foi eficazmente
implantado de forma não declarada, negando oportunidades, marginalizando-os, em
posições menos qualificadas. Se não
fossem ações pontuais como as de Antônio José 1º que influenciaram os Amaral e
outros ramos familiares, muitos dos nossos parentes mestiços não teriam tido e
aproveitado as oportunidades de ascensão
social de que desfrutaram.
Correspondência entre Antonio e Domingos
Estes fragmentos de correspondência entre Antonio José 2 e
Domingos José Meirelles – pai e filho - no tempo do exílio deste último foram coletados e documentados
por Antonio Ferreira da Silva Quintella. Estes fragmentos se encontram em
manuscritos registrados em cadernos do Santo Inácio, em resmas costuradas de
papel almaço e até em páginas de livros
que ele lia no hospital em suas muitas internações. Talvez Antonio FS
Quintella planejasse uma peça de teatro que não pode concluir. Não há
referência às datas destas cartas na documentação mas certamente se situam
entre 1893 e 1896 no tempo do exílio de Domingos. Suspeito também que algumas
das sentenças atribuídas a Antonio José 2 podem ser de seu pai, referentes
ainda ao Primeiro Império. Nestes documentos pode-se ver a crítica acerba
aos abolicionistas utópicos. Na visão dos autores, os utópicos eram homens infantilizados,
responsáveis tanto pela lentidão da transformação gradual de libertação efetiva
de escravos, que já estava ocorrendo, quanto pelo açodamento na abolição em 1888 que lançou cerca de 700
milhares de escravos numa falsa liberdade, por não terem sido educados nem
preparados para competir no mercado de trabalho. É bom lembrar que estes dois
missivistas eram descendentes de escravos e se orgulhavam de seus ancestrais
haverem conquistado sua liberdade e mantido graças à educação. O seu orgulho em não precisar de comiseração, nem tratamento ou atenção
especial da lei ou outra forma qualquer de vantagem, por sua origem, me fazem
lembrar dois gerentes que tive com origens negras mais próximas que as de
Antonio José 2 e Domingos José. O Físico Anselmo Sales Paschoa, doutor pela NYU
e pesquisador da PUC e CNEN, bem como Osmar Hermelindo Silva gerente da IBM
foram profissionais muito bem sucedidos, estimados e respeitados por seus pares,
sem nunca terem necessitado de quota protetiva de qualquer tipo, nem menção a
sua origem. Competiram em pé de igualdade com seus concidadãos e venceram, sem
complexos ou preconceitos.
Não creio que Antonio Ferreira da Silva Quintella concordasse
com tudo que coletou. Todavia a seleção dos parágrafos parece ter tido uma
intenção que não foi concretizada nem explicitada. Deve ter sido uma de muitas
obras incompletas que ele produziu, que contudo ficaram inéditas em virtude de
sua longa enfermidade. Até que ponto a autoria é só de Antonio 2 e Domingos não
se tem certeza. O mais provável é que haja muitas idéias de Antonio 1 nos
trechos de seu filho e seu neto, além das que são reconhecidas como dele. Além
disto é possível que haja alguma contribuição estilística e de conteúdo de
Antonio Ferreira da Silva Quintella. De qualquer forma é importante ressaltar
que nenhum dos Meirelles era contra a liberdade dos escravos, até porque
descendiam de pardos e índios. Seus comentários devem também ser lidos
levando-se em consideração que estas sentenças foram escritas em cartas
informais, entremeadas com assuntos pessoais que foram eliminados. O período é
seguramente entre os anos de 1893 e 1896. Portanto eles estavam ainda muito próximos
de eventos traumáticos como a Abolição, a proclamação da República, as crises
econômicas, as guerras civis e sobretudo a expulsão de Domingos da EMPV, seu engajamento na guerra, o aprisionamento e
por fim o exílio no Uruguai. O estado de
ânimo no país era de grande insegurança e ódio e havia também um arrependimento
em muitos setores com a queda da monarquia. Procurou-se manter aqui a ordem que
pode indicar o diálogo entre os missivistas. Perderam-se os nomes de alguns dos
figurões considerados por eles como abolicionistas utópicos, por isso não são
aqui citados. O grande valor das missivas é que lançam luz sobre o que uma
parte da sociedade, pouco divulgada, daquela época pensava. (Usou-se a
convenção DJM para Domingos José Meirelles, AJM 1 para Antonio José Meirelles 1
e AJM 2 para Antonio José Meirelles 2, para indicar a autoria das citações
extraídas das cartas copiadas nos manuscritos de Antonio Ferreira da Silva Quintella)
“...os abolicionistas utópicos não amealhavam
nada de prático para libertar
efetivamente os escravos para uma vida frutífera e produtiva.
Com isso dificultaram e inibiram o
empenho dos ativistas
concretos que como formigas pacientes educavam e faziam as alforrias gradualmente” ( Antonio José Meirelles 2).
“Eles
(os abolicionistas utópicos) foram
a vanguarda dos ativismos de sarau,
dos republicanos escravistas e dos pozitivistas de gabinete passeando
sua vaidade e hipocrisia sobre tapetes de veludo, usando enquanto
puderam alguns pobres ingênuos como mascotas e talismãs de sua
arenga enganadora.” (Domingos José Meirelles).
“Havia entre os famigerados abolicionistas utópicos
fazendeiros escravocratas, particularmente
de São Paulo. Como abonados pervertidos destruíram
a economia do Nordeste e construíram passo a passo, por décadas a fio,
as crises econômicas do país.” (Antonio José Meirelles 1/ 2?)
“
Alarmistas e arautos do fim do mundo eles( aboliconistas utópicos) foram sim responsáveis pelos erros nos
gastos da monarquia, apesar da frugalidade
de D Pedro II e da Família Real”. ( Domingos José Meirelles).
“
Inconscientemente eles (os utopistas tinham um impulso suicida, gestado no
ventre de um sentimento de culpa doentio. Narcisistas incontidos ressumavam
remédios mágicos, impensados e destrutivos. Quando alertados
de seus erros, davam de ombros e diziam
– às favas com o mundo,
ele que se fomente-.” (AJM2)
“Eles
(os utopistas) pareciam ser atormentados pelo medo da revolta. Deliravam esperando que surgisse
um Spartacus tropical que ensangüentaria
e incendiaria o país. Assustavam assim os mais covardes que
passavam a apoiar justamente os interesses dos inimigos da liberdade. Diminuíam
o ímpeto dos abolicionistas concretos, os formigas, como seu pai.
Confiavam no espírito danado do demônio indiano chamado Shiva, que tudo destrói,
julgando que isto era o princípio da Vida e o início de um novo tempo.”
(DJM)
“Estes
abolicionistas utópicos envenenados por objetivos messiânicos, com desígnios infantis eram na
verdade inadaptados aos costumes. Em vez de buscarem
a cura de suas angústias, culpavam os outros por suas atribulações.
Assim cegos de ver e surdos de ouvir davam vazão a seu ódio interior
em direção ao esgarçamento e à destruição do tecido do Império. “(AJM1/2?)
“Aos
poucos estes malsatisfeitos com a vida, desalentados de nascença, crentes
no absolutismo, criaram no povo um espírito letárgico, que permitiu que
um grupelho de castrenses mal intencionados, depusesse à sorrelfa o Imperador,
sem qualquer resistência. Mesmo na
Escola da Praia Vermelha notava-se
que os pozitivistas só se preocupavam com a política e teorias, deixando o adestramento militar em
segundo plano.” (DJM)
“
A balda dos utopistas era culpar os
outros por seus problemas e angústias. Assim como Adão
culpou Eva e Eva culpou a serpente e todos foram
expulsos do paraíso, assim também eles o fizeram. Ao simplificarem a
origem e solução das
mazelas do Império e da escravidão, posando de santos,
incorruptíveis, salvadores do mundo quase paralisaram as ações libertárias
necessárias para o progresso continuado da nação e fomentaram as crises ”. (AJM)
Aqui
no exílio a nostalgia é bem outra. É a vontade de voltar ao Brasil e rever
tudo que se ama. Há por aqui os fracos
que sucumbem ao alcoolismo, às
orgias convertendo-se em genuínos aventureiros, lídimos boêmios, inúteis
desocupados, revoltados contra patavinas. Bons amigos que foram no
passado, hoje se desencaminham em escolhas malfadadas. Graças ao bom Deus para mim há os negócios e a música para
ocupar a mente, empregar o
tempo e harmonizar os desejos de satisfação dos sentidos, com as
exigências de um comportamento sadio e civilizado. (DJM)
Não
é tempo de voltar ainda. Aqui fala-se de revoltas na Bahia, no Ceará, em
Pernambuco em outros lugares. A intenção de Floriano é sufocar com sangue
essas rebeliões e perseguir a todos os oposicionistas como se estivessem
todos prontos a restaurar a monarquia. Aqui se fala também que
quando Moreira César foi consultado para indicar um embaixador em Montevidéu, indicou um alferes
sob o argumento de que seu grande talento era
a precisão no tiro de fuzil. Portanto cautela aí no Uruguai e paciência para
aguardar a hora certa de voltar. (AJM2)
Os
homens probos e honestos são humildes e percebem que o mundo não é simples não. Já os utópicos, os
florianistas e sua caterva são sabichões, prepotentes.
Na estreiteza de suas idéias e limitações de seu entendimento se
arvoram o direito de impor suas mirabolâncias à força a seus concidadãos.
Imunes a ouvir críticas e protestos atraem desgraças sem fim. (DJM)
.
Muitas vezes tive que conter cidadãos
honrados e pacatos em seu ímpeto de
sacar uma arma quando ouvem os facínoras florianistas proclamando grande amor à
humanidade com suas mãos sujas de sangue e sue coração cheio de vilezas. (AJM2)
Não se pode crer nas autoridades
florianistas. O que dizem não é o que praticam. Esses pretensos erradicadores
do mal, no seu mundo irreal de pureza fazem grassar a mais sórdida corrupção e orquestram massacres
bestiais em nome de sua utopia barata. Esses falsos salvadores destroem tudo ao
seu redor com seu ócio improdutivo, vagabundagem locupletando-se num festim de abutres sobre a
carniça da pátria. (DJM)
Quando combateram e impediram os
negociantes de agir livremente, conspirando e traindo a monarquia eles se
esqueceram que foram os resultados destes negócios, destruídos por eles, que permitem-nos gozar até hoje deste ócio e
deste poder de que desfrutam. (AJM2)
Creio que a queda suave da monarquia
se deveu à mistura explosiva dos intelectuais arrogantes do abolicionismo
utópico com a nata de uma sociedade anestesiada pela culpa e pelo ócio
improdutivo. (DJM).
Hoje em dia andar nas rodas republicanas na Capital é como ir a um
bal-masqué, só se vê sandices infuriadas, hipocrisia e inverdades. Há que se
munir de muita fleugma para recalcar arroubo selvagens em nome de uma convivência
civilizada. Em toda a cidade o clima é muito tenso e paira uma nostálgica saudade dos velhos e bons
tempos do Império. Gostaria de saber em que merceeiro eles adquiriram o
monopólio da verdade e da virtude, pois gostaria de encomendar algumas arrobas
desta especiaria. (AJM2)
Agora entendo que os ancestrais pardos
e índios da família descobriram as chaves para progredir. Dentro do melhor
estilo darwiniano adaptaram-se, sobreviveram e ascenderam pelo intercâmbio e
adoção cultural sem revolta. Usaram a experiência dos parentes portugueses em
negócios internacionais na promoção do multiculturalismo eficaz. Aprenderam com
as diversas culturas que conheceram, e
que tinham patamares distintos de desenvolvimento técnico, a usar seus recursos conforme a necessidade. (DJM)
Creio que os nossos avós índios e
pardos souberam abraçar o que havia de
superior na cultura luso-brasileira e
mantiveram os aspectos úteis e
adaptáveis das culturas africanas e indígenas de onde procediam, visando
preservar e enriquecer sua identidade e originalidade. Foi esta sabedoria prática
de vida que abriu-lhes as portas para ascensão social. Se tivessem abraçado a
visão xenofóbica, ou racista, ou de confrontação, teriam deixado como herança
familiar a marginalização e a pobreza. (AJM2)
O nosso formigão Tomzé estava coberto
de razão ao pregar, desde 1830, que só uma abolição decretada num papel,
isoladamente, não traria uma verdadeira libertação e agravaria a miséria de
muitos. É claro que não tendo sido inventada por ele, a servidão, e mesmo
sendo uma das vertentes de seus
negócios, era percebida racionalmente
por ele como condenada eticamente, economicamente e politicamente no
médio prazo e requeria diversas mudanças concomitantes. O sistema inglês
indicava o caminho do futuro: criatividade, liberdade para os negócios
internacionais, educação em Ciências e Tecnologias, implantação de indústrias, menos rábulas, mais engenheiros. Ora tudo isto leva tempo,
talvez uma geração ou duas. Por isso ele dizia que uma abolição de sucesso
devia ser gradual, sem contar com milagres redentores, sem arroubos românticos,
mantendo ao mínimo o negócio de escravos, preparando-os bem para viverem uma
vida em liberdade. ( DJM)
Por ocasião deste Natal quero lhe
dizer que benditos são os rebentos que mesmo ao serem seduzidos pelas perdições
mundanas hesitam, meditando na descalçadora de suas mães se sucumbirem. Bem
aventurados os que rebotam e perseveram no caminho dos homens bons. (AJM2)
Mais na Guerra que na Escola Militar
aprendi é importante ser comedido e prudente. Os valores de antanho, cultivados
no Império parecer despropositados e desatualizados, mas se nestes terríveis
tempos de república da espada não forem cultivados por alguns as virtudes de
sempre, a nação cairá em descalabro e nos descaminhos do crime, varridas pelos
zéfiros enfuriados da irresponsabilidade. (DJM)
Todas os pensamentos têm seqüelas no
mundo. Todas as palavras movem o mundo. Todas as obras têm conseqüências no
mundo. Todas as conseqüências têm custo no mundo. (AJM1 e 2)
Estes utópicos abolicionistas e
republicanos que pregavam um mundo melhor sob a égide de uma “ordem” que traria
o “progresso” olvidando-se do” amor”, das tradições, dos sentimentos.
Enganando-se e aos outros em seu falso altruísmo, na verdade, são tiranetes na
prática. Com seu discurso sonso de liberdade transformam-se em pastores de um
rebanho dócil. Filhotinhos de Rousseau, querem
mandar em tudo e todos a ferro e fogo liberando as forças mais terríveis
de destruição, fazem muitos incautos caminharem pelas veredas do inferno. Aproveitando-se
de que o ser humano é intrínsecamente mau se não for educado para seguir as
regras do mundo civilizado provocaram um pandemônio no país. Mesmo este polimento e verniz da educação só conseguem conter uma
parte dos seres humanos dentro de padrões aceitáveis, mas nunca perfeitos.
Tolerar infinitamente os intolerantes
foi o maior erro do Império. (DJM)
Os abolicionistas utópicos, juntamente
com os militares pozitivistas se esqueceram de muitas coisas importantes. Para
acabar efetivamente a escravidão é preciso secar a fonte de escravos na África,
pois mesmo que os cativos tivessem escapado do tráfico negreiro para as
Américas, seriam tragados por um destino muito mais cruel e trágico nas mãos
dos sarracenos ou dos sobas africanos. Tanto os meus parentes quando os de sua
mãe (Anna Osorio do Amaral) não reclamam de maus tratos de seus senhores. Os
proprietários de escravos que conhecemos não eram tresloucados para destruir
seu “patrimônio”. Muitos libertos, como
os da nossa parentela, com o apoio de seus patrões e dos formigões, foram
educados e preparados para ganhar seu sustento e prosperaram. Para os que
souberam aproveitar a oportunidade real de ascensão foram bem recebidos pelas
famílias de bem. Mas em muitos lugares libertações afoitas só engendraram
frustração e revolta atirando magotes de gente na miséria. (AJM2)
Os nossos antepassados indígenas e
pardos perceberam que as grandes idéias ocidentais presentes em parte, ou
embrionariamente na cultura luso brasileira, ou pelo menos na cultura britânica
influenciando o país seriam o padrão do futuro. O racionalismo, o estado laico,
a busca da verdade pela Ciência, o império da lei e da ordem, a igualdade
perante a lei, os direitos de todos os cidadãos, a democracia parlamentar eram
percebidos por eles como uma grande conquista para todos os povos, etnias e
culturas. Para que progredissem sentiram que era necessário darwiniamente adaptar-se
aos costumes europeus, pois eles eram melhores para resolver as atribulações da
vida do que aqueles oferecidos pelas
culturas pré-históricas dos indígenas e dos africanos. (DJM)
Ora, é sabido que a escravidão não
nasceu nem na Inglaterra, nem em Portugal, nem em nenhum país do ocidente, mas todos os méritos de sua
morte lenta no século passado (XIX) devem-se à Inglaterra. Aliás é prudente
manter uma boa relação com a velha Albion. Primeiramente por ser a mais antiga
e leal aliada dos luso brasileiros. Em segundo lugar porque não é saudável
insurgir-se contra a maior potência do momento. O destino de quem provocou a
ira dos Romanos foi sempre o mesmo dos Trácios: desapareceram sem deixar
traços. (AJM1, 2)
Por muitos e muitos anos no Império
após a Guerra do Paraguai, que abalou a Fazenda da União, espíritos fracos
foram sendo arrebatados por um romantismo, não conformado, fanatizado que passaram
a desejar, em sua visão tresloucada, a
libertação dos cativos, mesmo impensada e a qualquer custo. O desenrolar dos
acontecimentos provou que o custo foi elevadíssimo e a amortização desta dívida
será demorada e prenhe de sacrifício por muitas décadas. Versos pinturas,
arroubos de oratório, exibições narcisistas de donos da verdade utópicos serviram
apenas para encobrir a dura realidade de sua ignorância sobre que rumos e
percalços teriam que ser enfrentados. Seres pequenos, místicos e arrogantes em suas
presunções grandiosas, pavimentaram a estrada para o precipício. Foi impossível
para a mente racional abster-se de um profundo pessimismo, antevendo o que a
precipitação promoveria. As feras da realidade, os deuses da guerra e os
monstros saídos das trevas devoraram os ingênuos, os bravos, os simples, os
gananciosos, os iludidos e também as vítimas negras que deveriam ser salvas.
Assim como a Revolução Francesa a Abolição impensada, em plena crise do
pós-guerra, desembocou num reino de horror, miséria, enfermidade e sangue.
Misticismo e ilusões distorceram a moral e o senso comum, deixando muitas
pessoas como que enfeitiçadas por Urizen – a negação de Deus – instalando o
caos republicano. (DJM)
Todos os pecados humanos estão
contidos e manifestos na escravidão. Mas como toda e qualquer situação pode
piorar, o caminho mal pensado, mal traçado, mal planejado será a miséria e a
perdição dos que como mortos-vivos ficarem livres de grilhões para serem atirados
num mundo infernal e para o qual não estarão preparados. Será como lançar
crianças ao mar. (AJM1)
A visão prospectiva dos Formigas foi
ignorada, sua visão e seus planos foi obnubilada pelo delírio utópico. Assim a
emanação de uma grande nação brasílica se desvaneceu na folia dos insensatos
que conseguiu perpetuar de forma disfarçada a escravidão. Essa miscelânea de
asneiras impedirá ou atrasará a
concretização do sonho brasileiro. (DJM)
Havia escravos bem tratados e bem
nutridos que tiveram filhos libertos e gozaram de uma vida tranqüila e longa em
seu cativeiro. Os formigas conseguiam isto para uma minoria que havia sido
preparada para a liberdade. E hoje uma década após a Abolição já se vê a fome a
miséria, a doença, e a morte prematura,
em muitos dos que foram libertos sem preparo. Enquanto a nau dos
insensatos utópicos, escravagistas arrependidos, republicanos pozitivistas
sossobra num mar de horrores as águas turbulentas da revolta devora devoram
seres humanos e os excretam na lama. (AJM2)