domingo, 4 de janeiro de 2015

Cap 4 Ascendentes de Domingos





Capítulo 4 Ascendentes de Domingos seção 4.2.1 Um preâmbulo crítico à vida dos Antonio José Primeiro e Segundo (Reflexões sobre a correspondência do exílio)

 Cerca de um século e meio após sua morte Antonio José Meirelles I permanece sendo o mai enigmático dos ancestrais de todos os ramos ligados aos Meirelles. Como pode um homem que influenciou tanto um filho e um neto, mesmo sem conhecê-los, quase ser desconhecido de seus bisnetos e trinetos? Por terem-no esquecido pouco se sabe hoje de seus dados genealógicos que serão pesquisados posteriormente.  Seus pensamentos e ações, no entanto ficaram presentes no sangue de todos  apenas no coração e mente de alguns poucos de seus descendentes. Partes de eulogios proferidos por alguns de seus amigos foram reunidos e são resumidos abaixo em formato livre.


“Ele foi ao mesmo tempo um grande negociante de escravos africanos e um estimulador praticante da miscigenação. Foi um reformador que propugnava a industrialização.o comércio internacional livre e a difusão universal de aulas de comércio e ciências.  Era um conservador que defendia a monarquia parlamentar e a expansão das artes.  Foi corajoso e implacável  no embate com os inimigos e também afável e doce com os cativos que negociou, educou, libertou  e foram uma fonte importante de sua riqueza. Justo e sábio soube recompensar seus fiéis servidores, promoveu a libertação de elementos servis e seus filhos, do mesmo modo que garantiu o futuro de seu filho natural e homônimo mestiço.  Socialmente  ativo e politicamente atuante, fez de  seu trabalho solitário um monastério em que acolheu  um grupo de libertadores, que como formigas operárias discretamente construíram vetores de desenvolvimento. Não conseguiu pleno impacto em seu intento por falta competência e discernimento aos líderes do Império  em compreender as tendências que ele anteviu e a visão clara do que devia ser feito. Foi igualmente judicioso educador e estimulador da Ciência tanto quanto sensível admirador  e pequeno mecena das artes. Foi habilidoso, firme, talentoso, encantador no trato social com aliados e duro, sardônico e cruel na política e com seus inimigos. Isto custou-lhe a vida e a admiração de muitos.  E se não fez mais por muito mais pessoas e ficou mais conhecido e reconhecido, pelo menos para aqueles poucos que tocou fez muita e real diferença. “

Antonio José Meirelles Primeiro, um homem de ação modernizadora que mergulhava intrepidamente em inovações e empreitadas de risco, bem como um pensador direto, objetivo passou a pelo menos um filho e neto o espírito de gestor eficaz. Deixou escritos que foram preservados por seu filho Antonio José Meirelles 2, revistos por seu neto Domingos e depois destruídos com o passar do tempo. A correspondência entre ambos em momento dramático de exílio pós-captura na guerra civil serviu para que se  resgatasse parte de sua visão do mundo, pois eles o citavam com freqüência. Já o trabalho de reescrever e salvar estas missivas foi realizado por meu pai Antonio Ferreira da Silva Quintella. Neste trabalho procuro dar uma organização e um sentido ao que restou.





O que se descobre na  preciosa correspondência dos Meirelles, apresentada em seguida, é a divisão dos abolicionistas em dois grupos, que são também identificados na imprensa da época. A terminologia usada na correspondência é diferente daquela usada na imprensa, que é muito variada. Desde Saquaremas e Luzias, monarquistas e republicanos, Conservadores e liberais, etc... Devido à variedade dos termos preferiu-se manter a terminologia dos missivistas, a saber: Utópicos e Pragmáticos. Com as informações das cartas pretende-se fazer  uma tentativa de  análise nova das correntes abolicionistas à luz do conceito de Cultura.

      
                                                     
                     

       
As Origens do Conceito de Cultura

Todos os os fundadores da Etnologia e Antropologia Científicas e mesmo os modernos fundadores das aplicações organizacionais partilham o postulado da unidade do homem, cabendo explicar a difícil questão desta unidade na diversidade perceptível na realidade. Tres caminhos podem ser explorados: Um que privilegia a unidade e minimiza a diversidade (escola puramente evolucionista), outra que privilegia a diversidade relativizando e minimizando a possível unidade e a terceira mista (adotada largamente nas organizações) evolucionista-difusionista reconhecendo e estudando as múltiplas tentativas de soluções variadas em busca de competitividade. Esta ùltima largamente utilizada pelo autor em Consultoria de Transformação Organizacional na IBM e na sua firma de Consultoria.





A definição original de Edward Burnett Tylor (1832-1917), o inventor do termo e fundador dos primeiros estudos científicos  e universalistas sobre o tema no âmbito social é a seguinte:




Edward Burnett Tylor
Edward Burnett Tylor
Edward Burnett Tylor
Born
2 October 1832
Camberwell, London
Died
2 January 1917 (aged 84)
Nationality
Fields
Known for












A definição original de Edward Burnett Tylor (1832-1917), o inventor do termo e fundador dos primeiros estudos científicos  e universalistas sobre o tema no âmbito social é a seguinte:


Cultura e Civilização, tomadas em seu sentido etnológico mais vasto, são um conjunto complexo que inclui o conhecimento as crenças, a arte, a moral, o direito,  os costumes e as outras capacidades e ou hábitos adquiridos pelo homem enquanto membros da sociedade

“Culture is that complex whole which includes knowledge, belief, art, morals, law, custom, and any other capabilities and habits acquired by man as a member of society" (Tylor 1924 [orig. 1871]:1). E o evolucionismo Cultural é uma abordagem teórica que busca descrever e explicar  processos de mudança de longo prazo.
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Esta abordagem se caracteriza por sua dimensão coletiva, ser dependente de aprendizagem, não depender de hereditariedade biológica e ser  inconsciente.
Neste ponto se assemelha ao conceito Berneano de Script Individual, assim definido em Quintella:

Um roteiro ou plano de vida subconsciente, concebido sob influência parental – ou outros transmissores de Cultura-, baseado numa decisão de aceitação infantil precoce, reforçado pelos pais – ou outros formadores de opinião- e justificado pelso evento subsequentes, culminado com um fim previsível e previamente escolhido. O somatório de scripts individuais e dos planos estratégicos pessoais de vida (estes últimos elaborados racional, metódica e livremente) numa organização de trabalho definem a cultura organizacional e  o destino do conjunto desta organização e de seus componentes.O somatório destes itens dos cidadãos forja a cultura de uma nação. Numa abordagem científica tem-se como premissa o livre arbítrio e o postulado de que cada um é senhor de seu destino e capitão de sua alma, apesar de todas as limitações  físicas, biológicas,sociais.

Mas se fosse apenas um processo inexorável em que tudo pudesse ser previsto a espécie humana  não passaria de um animal social, irracional como as formigas ou abelhas ou cupins, ou não ultrapassaria a selvageria decorrente das patologias sociais que destruíram vários grupos humanos (sociedades ou organizações de trabalho.).  

Além disto a definição Tyloriana se caracteriza por:
a)      compartilhar dos postulados Evolucionistas em virtude da fé que deposita na capacidade humana de progredir;
b)      aceitar a unidade psíquica da humanidade pela constataçãodas semelhanças existentes nos grupos humanos muito diferentes, alinhando-se com a filosofia Universalista;
c)      considerar a totalidade dos aspectos e presentes em todas as sociedades pela inclusão de estudos sobre os elementos materiais, simbólicos, corporais e das sobrevivências culturais alinhando-se com as escolas Comparativistas.
d)     Considerar que as diferenças entre primitivos e civilizados não era de natureza, mas simplesmente de avanço no caminho de progresso cultural alinhando-se com os Progressivistas e afastando-se do pensamento de desumanização dos mais primitivos.
e)      Reconhecer que nos contatos culturais trocas e adoções de caracteríticas ocorrem criando semelhanças entre sociedades confirmando a validade de investigação da hipótese Difusionista nos estudos de cultura.  

No âmbito organizacional Tylor influenciou profundamente a definição neodifusionista empregada em Engenharia de Produção e Administração, combinando as contribuições de Leakey, Quintella, Schein e Burke.

Robert Leakey
Heitor Quintella
Edgar Schein
W Warner  Burke

Cultura é o conjunto de premissas e crenças básicas de um grupo humano com objetivos comuns, consituindo um sistema de idéias aprendido ao longo do tempo,como respostas internamente integradoras na geração, adaptação, transferência e uso de produtos e processos bem sucedidos na resolução de problemas  condicionando formas de atuação inconsciente que se expressam por meio de padrões de conduta, estrutura de autoridade, formas de exercício do poder, Valores,Visão de si e do mundo, Sentido de missão, formas de premiação, padrões de comunicação, símbolos, expressões materiais, artísticas, corporais que fundamentam sua imagem, e gerenciam as mudanças necessárias ao longo do tempo. (Ver figura abaixo)

Metodologia Stratimidia de Análise e Gestão Cultural - 1998
Este conjunto de idéias foram usados experimentalmente neste trabalho para explicar o comportamento das correntes abolicionistas no Brasil. No século XIX

 A escravidão no modelo de produção portugues implantado no Brasil atravessa todos os níveis dos Sistemas Culturais Gerenciáveis apresentados acima. NO entanto ele teve um efeito deletério que inibe as mudanças adaptativas que implicou inicialmente numa vantagem competitiva num ambiente pré-industrial, mas que provocou profunda acomodação e uma perda competitividade, na era industrial  decorrente da revolução científica. O sistema de crenças gerado pelo ambiente católico, que já  havia sido fator de desenvolvimento no passado, naquele tempo foi o principal responsável por este atraso. Ele afetava o sub-sistema de aprendizagem que excluía o ensino de Ciência e Tecnologia, que por sua vez engessava o sistema produtivo  a produtos e processos chave baseados em agro pecuária e extrativismo tornando-o refratário ao  desenvolvimento de qualquer inovação como forma de resolução dos problemas sociais. Desta forma os traços culturais altamente variáveis ficam inibidos imobilizando o sub-sistema gerador de mudanças e afastou-os dos processo produtivos industriais.

Nunca é demais lembrar que o Brasil:

Era uma sociedade em que a escravidão como prática, senão como valor, era amplamente aceita. Possuíam escravos não só os barões do açúcar e do café. Possuíam-nos também os pequenos fazendeiros de Minas Gerais, os pequenos comerciantes e burocratas das cidades, os padres seculares e as ordens religiosas. Mais ainda: possuíam-nos os libertos. Negros e mulatos que escapavam da escravidão compravam seu próprio escravo se para tal dispusessem de recursos. A penetração do escravismo ia ainda mais a fundo: há casos registrados de escravos que possuíam escravos. O escravismo penetrava na própria cabeça escrava. Se, é certo que ninguém no Brasil queria ser escravo, é também certo que muitos aceitavam a ideia de possuir escravo. — José Murilo de Carvalho.


Mas Tylor influenciou os métodos de ensino e pesquisa que preconizam o uso de modelos simplifificados de observação das origens históricas, como se evidencia pela citação abaixo.

“Not merely as a matter of curious research, but as an important practical guide to the understanding of the present and the shaping of the future, the investigation of the early development of civilization must be pushed on zealously. Every possible avenue of knowledge must be explored, every door tried to see if it is open. No kind of evidence need be left untouched on the score of remoteness or complexity, of minuteness or triviality. The tendency of modern enquiry is more and more towards the conclusion that if law is anywhere, it is everywhere. To despair of what a conscientious collection and study of facts may lead to, and to declare any problem insoluble because difficult and far off, is distinctly to be on the wrong side in science; and he who will choose a hopeless task may set himself to discover the limits of discovery.” [Tylor 1924 (orig. 1871):24]

Mas a mais importante contribuição de Tylor é criar a grande supremacia da antropologia cultural sobre os demais sub-campos: biológico, arqueológico e linguístico. Isto teve impactos importantes na gestão das empresas fazendo com que a cultura organizacional passasse a ser objeto da atenção dos gerentes e dos métodos de consultoria.  Estes métodos é que foram aqui empregados experimentalmente para explicar a ação dos grupos abolicionistas do século XIX.
Assim como as pessoas seguem diferentes.”ways of life” em lugares e tempos diferentes, no âmbito das culturas sociais, bem como descobrir o sentido e a razão desta diversidade, no âmbito das organizações (seja de negócios, seja sem fins lucrativos) os modos distintos de se vivenciar a cultura passaram a ser observados por meio de benchmarks, visando descobrir que aspectos geram maior competitividade e eficácia na resolução de problemas, permitindo a evolução e o progresso das empresas e das sociedades. Do ponto de vista filosófico isto põe por terra a hipótese do degeneracionismo que preconizava que algumas culturas originavam-se de um nível mais elevado e regrediam para um nível mais baixo. Apesar de haver evidências de que algumas culturas altas se originaram de níveis mais baixos de cultura não se demonstra a ocorrência de degeneração. No modelo organizacional neo-difusionista o que se propõe é explicar o fenômeno de mudança nas posições relativas entre culturas organizacionais e sociais pela perda de competitividade resultante na diminuição na eficácia de resolução de problemas por meio dos sistemas .culturais gerenciáveis.
Observando-se a analogia física proposta pela hipótese cinemática do modelo neo-difusionista expressa pela equação abaixo é que se explica por que as culturas evoluem em velocidades vetoriais diferentes e têm DESEMPENHOS DIFERENTES. Assim se um grupo humano (organização ou sociedade) não está satisfeito com sua posição no espaço tempo-cultural ela pode  buscar mecanismos para se transformar mudando sua velocidade ou aceleração. Normalmente isto vinha sendo feito de maneira intuitiva ou descontrolada. E a analogia física obedece à equação de cinemática abaixo

O modelo organizacional diferiu das aplicações comuns em sociedades, pois admite a gestão da mudança. Já em sociedades  estuda-se o progresso tecno-econômico até de nações, com uma  atitude passiva de considerar a Cultura como um dado que não pode, nem deve ser gerenciado. É ESTA PREMISSA  que justifica as ações racionais de transformação usadas em pesquisa de ação pelas consultorias de transformação empresarial  e social que lidam com a gestão da mudança cultural. Estas ações de trnasformação exigem o uso de metodologias estruturadas com características próprias como a que se apresenta em seguida;

Conceitua-se uma metodologia de ação de transformação cultural na organização e em sociedade da forma abaixo:



O que se presume com boa chance de acerto é que os abolicionistas pragmáticos estavam desenvolvendo alguns esboços de métodos de transformação cultural, capaz de
promover a abolição de forma organizada e gradual sem risco de ocorrência de grandes turbulências socioeconômicas. Métodos de  transformação profunda que exigiam grande  envolvimento pessoal dos transformadores até o ponto da miscigenação. De uma certa forma eles parecem raciocinar de maneira aproximada a uma analogia Física da Terceira lei de Newton, justificando sua abordagem de transformação social gradativa, conforme as  equações abaixo. 




  MV+mv=0 \qquad (1)
Mass of Transforming Group * Velocity of Transformation Process = Mass of part of the society transformed * Velocity of societal transformation 

Nesta visão, pode-se imaginar que a situação que os pragmáticos queriam evitar era aquela em que, pela analogia Física. Assim a  razão entre  a energia transferida pelos grupos de transformação  e a energia da parte transformada era inversamente proporcional  à razão entre massa do grupo transformado e a massa do grupo transformador. O grupo Utópico desejava uma transformação rápida sobre uma massa social grande. Enquanto isto o grupo pragmático deseja uma transformação mais suave atuando em massas sociais de tamanho gerenciável. Mas é claro que havia também os  escravocratas que não queriam qualquer mudança.


 \frac{\frac{1}{2}MV^2}{\frac{1}{2}mv^2} = \frac{m}{M} \qquad (2)

 

Neste trabalho usaram-se este conceitos para entender as posturas dos abolicionistas no século XIX no Brasil. A questão é descobrir como diferiam em sua visão. Ambos não tinham dúvida, e não necessariamente a  mesma vontade, sobre se a  abolição ocorreria. A divergência maior era em como, com que velociade e quando isto ocorreria. Dois grupos eram discutidos em família: o dos utópicos e o dos pragmáticos. A divergência entre os dois grupos começa na própria declaração da Independência, vai se aprofundando e acaba dominada pelos utópicos que precipitam a Queda da Monarquia e a crise da Primeira República que os Pragmáticos queriam evitar. Como se verá a seguir a proclamação da República foi um verdadeiro passo atrás, precipitado, inconsequente que gerou uma crise sem precedentes na nossa história que acabou ecoando até hoje nas instituições nacionais.
A Primeira República, instalada apenas um ano após a Abolição atabalhoadamente declarada, vai de 1889 até a Revolução de 30. Tem dois momentos distintos: a República da Espada, até 1894, momento de consolidação do regime marcado pela presença dos militares no poder, e República das Oligarquias, até 1930, período em que os civis da escravocracia paulista ocupam o poder. Na República da Espada há um conflito acirrado entre centralistas e federalistas. Os centralistas, em geral militares positivistas do exército e elites agrárias predominantemente paulistas misturadas com os abolicionistas utópicos, liderados pelo marechal Deodoro da Fonseca, preconizavam um Estado forte,  e até certo ponto desejaram retardar a concretização da Abolição após a sua declaração, tentando burlá-la. Os federalistas majoritariamente civis  e militares da Marinha, Guarda Nacional e Guarda Negra que representam as forças políticas e econômicas dominantes nos Estados, principalmente do Rio Grande do Sul, Rio de Janeiro, Ceará e Bahia. Com Floriano Peixoto instala a mais trágica ditadura em meio a  revoltas  e  Guerras Civis No Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, Ceará e Bahia.
Na fase da República das Oligarquias  os cafeicultores paulistas, que já detinham a hegemonia econômica, conseguem também a hegemonia política debaixo de uma corruptocracia disseminada por todo o tecido cultural da nação, que acabou persistindo até hoje, fazendo da política paulista a mãe de todas as corrupções nacionais. Com Prudente de Morais estabelece-se “política do café-com-leite”, alternando-se no poder representantes do Partido Republicano Paulista (PRP) e do Partido Republicano Mineiro (PRM). Mais adiante Campos Sales, amplia acordos políticos com mais oligarquias locais criando a “política dos governadores”. Este período viu também grande retrocesso econômico, cultural e técnico do país. Em particular, aqui reside a maior segregação aos negros e pardos libertos que foram colocados em “seu lugar”, a saber, nas favelas, sem educação e sem possibilidade de se desenvolver socialmente. A cultura nacional dominada pelos abolicionistas utópicos misturados com os escravocratas de diversos matizes instalou uma duradoura discriminação institucionalizada e disfarçada.
O que se procura evidenciar é que, em determinado momento, os utópicos  reuniram grande massa transformadora e em menos de um ano desencadearam uma grande transformação no sub-sistema de crenças, e no sub-sistema produtivo, desequilibrando o grande sistema da Cultura nacional, por não atuarem nos sub-sistemas de aprendizagem e de resolução de sistemas. Com isto, os esforços graduais de libertação, que vinham ocorrendo  há décadas pelos pragmáticos, foram inibidos pela viscosidade gerada por espasmos utópicos e  não tiveram tempo de atingir  a massa crítica da sociedade para gerar uma sociedade de aberta progressivista.  


O movimento abolicionista no Brasil se inicia com a tentativa de abolição da escravidão indígena, em 1611 e a sua abolição definitiva, pelo Marquês de Pombal, durante o reinado de D. José I. Em 1798 ocorre a fracassada Conjuração Bahiana que pretendeu a independência da Região e a erradicação da escravidão em geral para negros e os poucos índios ainda escravizados. Após a Independência do Brasil, a movimentação  neste sentido estendeu-se por toda a duração do Império. Alguns Negociantes ligados aos ingleses como Antonio José Meirelles já haviam percebido que o ponto não era se a abolição ocorreria um dia no Brasil, mas como e quando ela deveria ocorrer. Até sua morte vários negociantes agrupados sob a égide de um abolicionismo pragmático se articularam em torno de agir por conta própria criando condições para que a Abolição ocorresse gradualmente, sem riscos de revoluções, sem riscos de atraso econômico. Só em 1850, a causa ganha relevância, pois com a proibição de importação e o início da Guerra econômica paulista contra o nordeste. E enfim assume um  caráter verdadeiramente popular, a partir de 1870, com a crise que se seguiu à Guerra do Paraguai. Culminando, enfim, sem o menor planejamento, sob pressão de escravocratas falidos  ressentidos, pozitivistas, republicanos,  revanchistas e de abolicionistas utópicos inconsequentes todos com  impulsos auto destrutivos que aproveitaram um momento de ausência do Imperador, com a assinatura da Lei Áurea de 13 de maio de 1888, que extinguiu a escravidão negra no Brasil, para um número pequeno de remanescentes totalizando cerca de 700 mil escravos.


Os utópicos estavam presentes mesmo antes da vinda da Família Real para o Rio de Janeiro. Havia antes da Invasão de Portugal alguns  afrancesados que idolatravam a Revolução francesa. Eles partilhavam o racismo Napoleônico que dizem historiadores como Claude Ribbe ter sido grande inspirador de Hitler. Sua ação genocida ocorreu   fortemente no Haiti, Guadalupe, Saint Domingue, Martinica, Guiana e na perseguição de oficiais de origem negra. O ministério napoleônico de 1800 era de racistas nostálgicos, adeptos  da ideologia  de preconceito de sangue  e da superioridade branca. Sob a proteção do Cônsul e dedicada a Joséphine e foi publicada uma obra prima da literatura pré-nazista de autoria de Baudry des Lozières, intitulada Les ègarements du Negrophilisme – Os desvios do negrofilismo. Os índios não escaparam da sanha assassina de Napoleão. Sob sua ordem Louis de Noailles colheu em Cuba 600 boldogues para alimentá-los com carne de indígenas em espetáculo público promovido por Rochambeau.   Causou grande temor de ocorrer no Brasil uma revolta negra como a que foi liderada por Toussaint Louverture. Os afrancesados foram inibidos inicialmente em sua expressão, pois isto teria significado alta traição, enquanto durasse a Guerra contra a França. Mas os afrancesados retornaram à carga lentamente após a vinda da missão de Arte Francesa. Neste contexto não é surpreendente que  o Conselheiro Antônio Rodrigues Veloso de Oliveira, o primeiro magistrado paulista, formado em Coimbra, tenha dado  início a triste tradição de advogados, sem  formação técnica nem administrativa, dirigirem negócios de Estado. Este homem ocupou o posto de Conselheiro no Reino e  foi uma das primeiras vozes abolicionistas utópicas  do Brasil recém-independente.  Racista, preocupado  apenas em branquear a raça em São Paulo, critica práticas correntes tanto de escravocratas, quanto de abolicionistas pragmáticos e propõe a imigração das massas européias, flageladas pelo Terror Napoleônico, sem qualquer plano de sustentação,  agregando ainda um triste arremedo de Lei do Ventre Livre, que já era praticada  espontaneamente por Negociantes Pragmáticos. Deixa ele emergir claramente seu espírito racista,  escravocrata e agrário ao propor que, na impossibilidade do estabelecimento de correntes migratórias contínuas, prosseguisse o comércio de escravos europeus brancos, mas que a escravidão deste migrante fosse temporária por  dez anos e que, no Brasil, nascessem livres os filhos dos escravos, sem qualquer medida de suporte a estes últimos. Nenhuma palavra foi proferida sobre como preparar os libertos para Liberdade, nenhuma palavra foi dita sobre como industrializar e modernizar o país, enfim uma idéia delirante e retrógrada. Durante a Regência, ocorreu mais uma vez o fenômeno de Lei que não Pega. Pois foi promulgada uma lei que proibia o tráfico de escravos africanos para o país, que nunca foi aplicada, boicotada que foi pelos escravocratas.
A Bill Aberdeen (1845), caindo no vácuo criado pela expiração do tratado anglo brasileiro de tolerância causou pânico em traficantes e proprietários de escravos e de terras distraídos, pois os pragmáticos já estavam se preparando para o fim da escravidão. Com esta lei a Marinha Britânica tinha o direito de apresar navios negreiros  nos sete mares e devolver a carga para a África ou transferi-la para os navios britânicos. Isto, por incrível que pareça,  aumentou o volume de comércio e o preço de escravos, pela antecipação de compras antes da implementação da medida. Além disto alguns traficantes fizeram desembarques clandestinos até 1856.  A ameaça britânica provocou protestos em todas as províncias, pois a escravidão era institucionalizada, fazia parte da Cultura. Era apoiada até pela Igreja, que permitia que mesmo os padres tivessem escravos, que a considerava necessária e  legítima. Em outras palavras criava-se aqui a hipocrisia mais descarada, pois até escravos tinham escravos, ninguém no Brasil queria ser escravo, todavia muitos aceitavam a ideia de possuir escravos.   Parece muito com  a visão hipócrita dos socialistas de todas as cores, que pregam suas idéias para os outros, mas querem gozar das benesses do capitalismo, tão em vigor até hoje. E corretamente todos no Império concordavam que a economia dependia do elemento servil como força motriz. Por isso muitos conservadores, não pragmáticos, acusaram os liberais de submissão a Coroa Britânica, iniciando uma esquizofrênica anglofobia, baseada numa defesa imprópria e suicida da soberania e da segurança nacionais, que iria prejudicar o desenvolvimento do país. A barbárie dos capitães civis, cujos navios foram apresados pela Marinha Inglesa, fez com que algumas vezes preferissem atirar ao mar seres humanos como se fossem cargas inertes.   Caio Prado Júnior aponta  que, em 1846, ingressaram no país 50.324 escravos, em 1848 60 mil. Há cálculos que desde o início do tráfico negreiro até 1850 variando, desde 2,5 até 3,5 milhões de africanos cativos migraram à força para o Brasil, dependendo do autor. A verdade é que não se sabe o número ao certo.
Os pragmáticos conservadores convenceram D Pedro II, a enfrentar as  ameaças no Prata e no Chaco aprofundando a aliança histórica, herdada dos portugueses com o  Reino Unido. Em 1850, o Imperador, pressionado externamente pela determinação do primeiro-ministro britânico Gladstone em cumprir tratados com rigor e internamente pelos conservadores pragmáticos apresentou ao parlamento a lei Eusébio de Queirós que estabelecia em seu artigo 3:
—"São autores do crime de importação, ou de tentativa dessa importação, o dono, o capitão ou mestre, o piloto e o contramestre da embarcação, e o sobrecarga. São cúmplices a equipagem, e os que coadjuvarem o desembarque de escravos no território brasileiro de que concorrerem para ocultar ao conhecimento da autoridade, ou para os subtrair à apreensão no mar, ou em ato de desembarque sendo perseguida".

Os conservadores ortodoxos apoiaram a ala pragmática na abolição gradual, supondo poder  manter a escravatura e a estrutura agrária de produção e empurraram os liberais para a visão utópica. Foi assim que os escravocratas paulistas promoveram e aceleraram  a decadência do Nordeste. A produção de açúcar estava em crise, e assim foi estimulado o tráfico interno de escravos  para as novas regiões de cafeicultura. O pretexto de  racionalizar o uso da mão de obra escrava se baseava nos altos preços do elemento servil pela sua escassez. Esta migração interna pode ser observada nos negócios da Família Vianna de São Cristóvão Sergipe.  Bóris Fausto estima que o tráfico interprovincial, de 1850 a 1888, deslocou de 100 a 200 mil escravos. Mas o esvaziamento descontentará os senhores de escravos e de terras nordestinos, bem como os demais fazendeiros falidos, que viraram abolicionistas utópicos.
Os abolicionistas utópicos esperavam também que, cessando o fornecimento de escravos, a fonte geradora de elementos servis secasse– o que não aconteceu, devido a força dos escravocratas. Todavia as várias epidemias de malária, as constantes fugas de escravos, seu baixo índice de reprodução, e a alforria de muitos escravos, inclusive daqueles que lutaram na Guerra do Paraguai, contribuíram sensivelmente para a diminuição da quantidade de escravos. Mas a ação benéfica dos abolicionistas pragmáticos era insuficiente na libertação de escravos bem preparados para o mercado lançando muito poucos no mercado. A chegada de migrantes europeus brancos fez com que muitas regiões os escravos negros  fossem substituídos abruptamente e lançados na indigência. Algumas cidades em 1874 tinham 80% dos trabalhadores rurais negros, e, em 1899, 7% de trabalhadores negros e 93% brancos. Em 1870 62% dos escravos do Brasil estavam concentrados em Minas, Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul e São Paulo. Dos 1 540 000 es­cravos, 955 109 encontravam-se nessas províncias. No norte e nordeste, em razão de sua de­cadência econômica, havia apenas  584 891. Protestavam desde 1850 os endividados fazendeiros do Norte, por terem   hipotecado suas propriedades para especuladores e grandes traficantes - entre os quais muitos portugueses, para aquisição de cativos africanos. Por isso mesmo no Norte houve abolições por quase já não haver mais escravos, e.g. em 1884, o Ceará e o Amazonas aboliram a escravidão em seus territórios.  Uma das justificativas para o fim da importação de escravos a partir de 1850 era o temor de que se a proporção entre escravos e livres aumentasse a «boa sociedade» correria «perigos gravíssimos». Houve revoltas mal sucedidas no passado como a dos Malês, em Salvador, em 1835, que justificavam até certo ponto este temor.
 A abolição em 1888, sem planejamento, como não desejavam os pragmáticos trouxe graves problemas com se vê nos relatos da época.
Andrade Figueira:
Os escravos fugiram em massa, prejudicando não só os grandes interesses econômicos, mas também interesses de segurança pública: houve mortes, houve ferimentos, houve invasão de localidades, houve o terror derramado por todas as famílias, e aquela importante província durante muitos meses permaneceu no terror mais aflitivo. Felizmente os proprietários de São Paulo, compreenderam que, diante da inação da Força Pública, melhor seria capitularem perante a desordem, e deram liberdade aos escravos.
Joaquim Manuel de Macedo em seu livro: As Vítimas-Algozes:
A "Venda" (estabelecimentocomercial receptador dos bens furtados, nas fazendas, pelos escravos e quilombolas) não dorme: às horas mortas da noite vêm os quilombolas, os escravos fugidos e acoutados nas florestas, trazer o tributo de suas depredações nas roças vizinhas ou distantes ao vendelhão que apura nelas segunda colheita do que não semeou, e, que tem, sempre de reserva, para os quilombolas, recursos de alimentação de que eles não podem prescindir, e também, não raras vezes, a pólvora e o chumbo para resistência no caso de ataques aos quilombos.
Everardo Vallim Pereira de Souza:
“Segundo a previsão do Conselheiro Antônio Prado, decretada de afogadilho a “Lei 13 de maio”, seus efeitos foram os mais desastrosos. Os ex-escravos, habituados à tutela e curatela de seus ex-senhores, debandaram em grande parte das fazendas e foram "tentar a vida" nas cidades; tentame aquele que consistia em: aguardente aos litros, miséria, crimes, enfermidades e morte prematura. Dois anos depois do decreto da lei, talvez metade do novo elemento livre havia já desaparecido! Os fazendeiros dificilmente encontravam "meieiros" que das lavouras quisessem cuidar. Todos os serviços desorganizaram-se; tão grande foi o descalabro social. A parte única de São Paulo que menos sofreu foi a que, antecipadamente, havia já recebido alguma imigração estrangeira; O geral da Província perdeu quase toda a safra de café por falta de colhedores!”

Conforme alertavam os pragmáticos, sem a necessária educação ou treinamento em alguma profissão definida, sem preparação para a industrialização que deveria suceder a economia agrícola, para a esmagadora maioria dos  escravos, a simples emancipação jurídica nada alterou em seu status subalterno nem promoveu sua cidadania nem sua ascensão social. Por outro lado não foi prevista nenhuma medida compensatória para evitar a falência de todas as fazendas e o colapso da economia. Os abolicionistas utópicos como cães hidrófobos suicidas pregaram intensamente “Abolição sem indenização”, apoiados por jornalistas, profissionais liberais e políticos que não possuíam propriedades rurais, foram  atendidos. (Pimenta nos olhos dos outros é refresco)
O desastre foi tão grande que até os movimentos de negros e pardos ficaram insatisfeitos.  Algumas vezes a verdade é mais estranha que a ficção. A visão dos pragmáticos foi só tardiamente bem recebida pelos movimentos negros. Vários movimentos só ao final do século, e até hoje, se alinham com os pragmáticos considerando 1888 como um golpe branco contra D Pedro II,  dado pelos escravistas paulistas, em desespero, aliados com os utópicos,  para impedir a ascensão social dos pardos e negros. O sucesso deste golpe se vê até hoje.
Campanha Abolicionista

Revista Ilustrada de de Agostini em 1880 sobre a campanha abolicionista
Até que ponto os abolicionistas mais famosos eram utópicos ou pragmáticos não está claro e mais estudos a respeito devem ser conduzidos para elucidar a questão. Tal é o caso de  Joaquim Nabuco,  José do Patrocínio, da Sociedade Brasileira Contra a Escravidão. Mas não há dúvida quanto a visão radical e utópica de  Ângelo Agostini, dos positivistas Miguel Lemos e Raimundo Teixeira Mendes, bem como de  Rui Barbosa.
• Após a proibição da escravidão:
Em 14 de dezembro de 1890, por decreto , em proposta feita por Joaquim Nabuco no ano de 1888, Rui Barbosa, empossado em sua função de Ministro da Fazenda, solicita a destruição de todos os livros de matrícula, documentos e papéis referentes à escravidão existentes no Ministério da Fazenda, de modo a impedir qualquer pesquisa naquele momento e posterior a ele que visasse a indenização de ex-proprietários de escravos. No entanto, essa decisão só foi efetivada em 13 de maio de 1891, na gestão de Tristão de Alencar Arapipe que, na ata do encontro que culminou em tal destruição, mandou analisar a situação do escravo sob o ponto de vista jurídico um ano antes, e as tendências abolicionistas naquela época. Rui Barbosa via na escravidão o maior dos problemas do Brasil, não tolerando meios-termos quanto ao seu fim, a exemplo das Leis do Ventre Livre e do Sexagenário: se é para deixar de existir a escravidão, que seja extinta por completo. O Ministro afirmava que, se era par alguém ser indenizado, deveriam ser os próprios ex-escravos. Porém, sabendo da impossibilidade desse acontecimento, a ideia de queimar seu acervo teve início.

No ano de 1840, com apenas quinze anos de idade, Dom Pedro II foi lançado à condição de Imperador do Brasil graças ao expresso apoio dos liberais. Nessa época, a eclosão de revoltas em diferentes partes do território brasileiro e a clara instabilidade política possibilitaram sua chegada ao poder. Dali em diante, ele passaria a ser a mais importante figura política do país por praticamente cinco décadas.

Para se manter tanto tempo no trono, o governo de Dom Pedro II teve habilidade suficiente para negociar com as demandas políticas da época. De fato, tomando a mesma origem dos partidos da época, percebeu que a divisão de poderes seria um meio eficiente para que as antigas disputas fossem equilibradas. Não por acaso, uma das mais célebres frases de teor político dessa época concluía que nada poderia ser mais conservador do que um liberal no poder.

Esse quadro estável também deve ser atribuído à nova situação que a economia brasileira experimentou. O aumento do consumo do café no mercado externo transformou a cafeicultura no sustentáculo fundamental da nossa economia. Mediante o fortalecimento da economia, observamos que o café teve grande importância para o desenvolvimento dos centros urbanos e nos primeiros passos que a economia industrial trilhou em terras brasileiras.

Vivendo seu auge entre 1850 e 1870, o regime imperial entrou em declínio com o desenrolar de várias transformações. O fim do tráfico negreiro, a introdução da mão de imigrante, as contendas com militares e religiosos e a manutenção do escravismo foram questões fundamentais no abalo da monarquia. Paulatinamente, membros das elites econômicas e intelectuais passaram a compreender a república como um passo necessário para a modernização das instituições políticas nacionais.

O primeiro golpe contundente contra D. Pedro II aconteceu no ano de 1888, quando a princesa Isabel autorizou a libertação de todos os escravos. A partir daí, o governo perdeu o favor dos escravocratas, último pilar que sustentava a existência do poder imperial. No ano seguinte, o acirramento nas relações entre o Exército e o Império foi suficiente para que um quase encoberto golpe militar estabelecesse a proclamação do regime republicano no Brasil.

Percebe-se porém, que livres os ex-cativos encaminhavam-se para os grandes centros urbanos causando uma explosão demográfica e uma série de problemas, pois sem nenhum tipo de preparo a viver abaixo da linha de pobreza, porém muitos fazendeiros tiveram suas fortunas abaladas e alguns chegaram a beira da falência, pois estes dependiam primordialmente do trabalho gratuito que era prestado pelos ex-escravos e no princípio não aceitavam a idéia de pagar aos trabalhadores salários para que realizassem as atividades que antes adquiriram muitos lucros com a exploração e opressão.
O efeito da abolição levou os libertos a travarem outra batalha, talvez mais difícil e complexa, pois lutaram para integrar-se em uma sociedade preconceituosa que os via ainda como uma mercadoria, a liberdade foi apenas o primeiro passo na longa caminhada de sua trajetória rumo a conquista por respeito e direitos. Refletindo sobre o processo abolicionista e toda a sua trajetória para que se tornasse realidade observa-se o desgaste e o enfraquecimento de um Estado, que mostrou-se omisso durante todo o período oitocentista revelando uma imagem de derrota frente as dificuldades que os libertos enfrentavam com uma sociedade pautada na desigualdade jurídica.
Na realidade a abolição não significou a total e imediata destruição da ordem tradicional, pois o país permaneceu agrário e apoiava-se na exportação de produtos tropicais, pois a classe senhorial foi profundamente afetada após a abolição. A modernização econômica foi um processo lento possuindo um arcaísmo onde apenas algumas áreas conseguiram um limitado processo apresentando os contrastes além de uma frágil estrutura em meio a crises que comprometeram durante muitos anos o desenvolvimento do país.






















Na tabela abaixo procurou-se reunir o que nas missivas dos Meirelles e na Imprensa da época definia aproximadamente, com algumas restrições, o que poderia ser rotulado como visões utópica e pragmática dos abolicionistas.

Pensamentos dominantes nos Utópicos
Pensamentos dos Pragmáticos
Pouco ensino e de baixa qualidade
Ensino Cientifico e tecnologico
Lavoura
Industrialização
República
Monarquia parlamentar
Transição rápida e total
Transição gradual
Judicialização da questão
Visão Econômica da questão
Afastamento dos servos em despreparo
Preparação dos servos para a libertação
Desconsideração sobre  funcionalidade
Manutenção da estabilidade
Expansão do porte do Estado
Expansão da livre empresa
Leniência com a corrupção
Lisura como princípio de ação
Sem previsão e sem planos
Planos flexíveis
Oferta de garantia de impunidade
Justiça presente
Escravocratas falidos revanchistas
Negociantes vitoriosos visionários
Advogados Golpistas corporativistas
Negociantes e tecnicos
Militares Pozitivistas
Guarda nacional e Guarda negra
Brancos e Negros escravos revoltados
Pardos e Negros adaptados e libertos
Controle da imprensa
Liberdade de pensamento e expressão
Lânguidos
Energéticos
Racistas
Miscigenadores
Afrancesados
Pró-luso-britânicos
Autoritários
Equânimes
Valor da causa maior que a Vida
Vida e Progresso são a Causa
Populistas
Democratas
Demagogia
Prudência
Revolucionários inconseqüentes, maiorias conservadoras
Minorias Conservadoras e Liberais
Traiçoeiros egocêntricos
Leais Empreendedores Livres
Intolerantes
Tolerantes
Agressivos militantes
Negociadores incidentais
monopolistas
Competitivos livres
Retrógrados
Progressivistas
Apoio ao Exército
Apoio à Guarda Nacional e Marinha
Hostilidade à Guarda Negra
Apoio à Guarda Negra
Radicais
Ponderados
Anglófobos
Plurialiancistas
Descrença na capacidade dos negros
Crença na Humanidade dos negros

Com estas considerações é possível entender melhor a visão particular que pai e  filho intercambiam na correspondência entre os anos e 1893 e 1896, quando Domingos estava no exílio Uruguaio. 


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Capítulo 4 Ascendentes de Domingos seção 4.2.2 Um preâmbulo crítico à vida dos Antonio José Primeiro e Segundo (A correspondência)

Um legado tanto romano quanto suevo que permeava todo o substrato trasmontano, meio herético, meio pagão foi importante na formação da personalidade cética de Antonio 1, admirador do papa Julio II, segundo ele encarnação verdadeira do príncipe de Machiavelli. No norte de Portugal  berço da nacionalidade,  da resistência contra invasores e sobrevivência do lastro cultural essencial sempre existiu uma sutil  subjacente rejeição ao cristianismo. Ele professava pelo menos dois princípios fundamentais do estoicismo. O primeiro era aceitar o seu destino e viver sem conflito de acordo com os mores de seu tempo. Ele sabia que o caminho dos mártires transformadores radicais não era sua vocação. O segundo era a crença na igualdade dos homens. Contudo aceitava que por acidente, desonestidade, incompetência, imprudência ou pura injustiça alguns seres acabassem castigados com o cativeiro. Esta dualidade é que permitia que convivesse  de forma igual com senhores e ter um bom trânsito com escravos.  Num ambiente social turbulento ele conseguia atuar pontualmente, sem alarde, de forma sutilmente tolerável, na transformação infinitesimal de um mundo brutal numa coletividade intransigente. Isto o fez bastante popular em alguns setores, mas odiado em outros,  num tempo em que isso era uma faca de dois gumes, sendo ao mesmo tempo maldição e bênção, despertando tanto inveja quanto admiração, angariando ora amizades ora inimizades. Prosperou como poucos, beneficiou a muitos e deixou uma descendência numerosa e influente. Todavia deixava transparecer sempre algum remorso, revelando em família  que  procurava evitar e diminuir a vergonha da desumanidade da escravatura, mas não esperava muitos elogios, nem reconhecimento. Esta sua postura acabou provando que é possível contribuir para o progresso sem ser destrutivo, mesmo num regime de privilégios para alguns e despotismo para outros. Evidentemente não teria sucesso se não exibisse grande dedicação, trabalho árduo, habilidade de conviver entre senhores e nobres sem perder a naturalidade e entre cativos sem medo ou sem se degradar e finalmente por ter uma preocupação constante com o futuro.
A  ”PAX LUSO-BRASILICA” nesta época era delicada e perigosa, constantemente sacudida por guerras e revoltas, permitia somente isto: que alguém como Antonio fosse apenas sabiamente um pouco melhor que os perversos ao seu redor. Isto era essencial para sobreviver num sistema de hipocrisia social e violência institucional sufocante de falsa religiosidade cristã. Ele percebia todo este quadro, destoante do que acontecia na Inglaterra, potência central do dia, como um sinal inequívoco  de que o regime estava caminhando para um inevitável atraso e um possível colapso ou desmembramento do reino em várias nações, a exemplo do que acontecia na América Espanhola. Acalentava na verdade um desejo discreto de que esta separação das grandes regiões do Brasil acontecesse, pacificamente, federativamente, pois isto aceleraria os negócios em geral e traria a oportunidade de que pelo menos algumas das regiões se afastassem do ambiente tóxico e retrógrado da escravatura.
Muito perceptivo ele sabia que a força motriz  da nação era a mão de obra escrava. Sabia da grande quantidade de servos. Tinha consciência da revolta potencial latente que ameaçava a segurança de todos. Por isso tinha muito tato e cuidado na condução de seus relacionamentos e negócios com o elemento servil. Por tudo isto, pode-se dizer que o tempo presenteou  Sinhô Tomzé com o grande desafio de navegar por momentos incertos e traiçoeiros sem no íntimo comprometer seus valores, mantendo a honra ao subir na vida graças a seus negócios, no seio de uma estrutura produtiva sórdida em seus alicerces. Ele percebia com clareza que a liberdade ia muito além de tirar os grilhões dos escravos. Isto, se feito irresponsavelmente, teria não só impacto destrutivo na economia e poderia lançar o país na guerra civil, mas criaria cidadãos de segunda classe.  Ele sabia que era necessário educar os escravos para a liberdade em um mundo cada vez mais dependente de conhecimento de Ciência e Tecnologia. Ele sabia que era necessário preparar os  escravos para competir num mercado de trabalho como cidadão livre e conseguir uma vida digna para  realizar seus sonhos. Esta ação prática permitiu que milhares de escravos fossem libertos, ao longo de décadas, o ódio latente entre senhores e escravos diminuindo  a tensão social a um ponto em que as transformações pudessem ocorrer de forma racional, sem contragolpes decisivos, sem revoluções sangrentas.  Com sua ação de formiguinha libertadora, com simpatia e alegria, agregou em torno da idéia libertadora racional outros negociantes e lideranças incipientes entre escravos e alforriados. Conseguiu assim abrir corações, mentes  e portas de negociantes e também as pernas de escravas e sinhazinhas para uma efetiva piecemeal social engineering. Mas isto atraiu sobre si também o ódio tanto dos abolicionistas utópicos, que irresponsavelmente queriam lançar o país no abismo, e dos escravagistas que queriam só se locupletar condenando o país ao atraso. O Clube das Formigas, associação secreta de negociantes portugueses, brasileiros e ingleses, alguns dos quais eram maçons, usava ora a formiga ora um círculo de formigas como símbolo  de sua ação libertadora, eficaz, pontual de preparação de escravos para a liberdade e apoio ao seu crescimento social. Tomzé e seu filho foram guardiões dos poucos papéis que restaram deste discreto clube (inspirado na fábula La cigale et la fourmi de La Fontaine) que fez alguma diferença discreta na Paz Social do Império. O bom coração de Tomzé e sua boa cabeça foram uma combinação de sucesso que fez a diferença neste mundo, especialmente para seus descendentes. Eram famosas frases suas que vararam os tempos: “ Ora raios! É só olhar e ver que estes escravos são gente. E é sabido que nasceram livres lá em sua terra, como é a natureza de todos os homens.   Não é preciso uma lei para declarar que escravos são homens. Basta educá-los  e prepará-los para serem homens livres. Ódio e amor são aprendidos e só pela educação se faz o amor vencer o ódio. Estudar as Ciências é o maior ato libertador e de de rebeldia” Tomzé conquistava os bons por estar sempre disposto a mudar suas opiniões diante de novas evidências, os inteligentes por levar em consideração as novas descobertas e invenções e os honestos por estar sempre disposto a ouvir críticas e dialogar.
 Esta é uma possível imagem de Maria Leonor da Guia, encontrada nos arquivos de família. Ela era mãe de Antonio 2º filho natural de Tomzé. Maria Leonor era nascida em Mangaratiba e supõe-se que era mestiça, todavia se efetivamente for a parda identificada na certidão pode tanto ser descendente de africanos como de silvícolas. Pela aparência desta imagem tanto pode ser mulata clara quanto cabocla. Vem daí uma das origens mestiças da família. A outra está nos Amaral. Para entender a vida de Tomzé convém compreender algumas características da Escravidão colonial na Américas. Inicialmente a escravidão ainda existe no mundo apesar de todas as leis já promulgadas.  Nas tabelas abaixo pode-se constatar estes números.
Eis alguns fatos históricos sobre a escravidão mais recente.
De 1451 a a 1867 tráfico transatlântico para Europa e Américas  12 milhões de pessoas.
De 900 a 1900 tráfico transaariano e transindico por islâmicos  12 milhões de pessoas.
De 1453 a 1920 de islâmico mediterrâneo-eurasiano 3 milhões de pessoas.
 Hoje há cerca de 30 milhões de escravos no mundo dentre os quais as modalidades mais freqüentes são: crianças no tráfico de drogas e nas guerras, casamentos forçados, endividados,trabalhadores sem qualificação forçados a trabalhar, prostituição forçada  gerando mais de 38 Bi US$ de lucros em 2012.
Apesar de todos os esforços a escravidão resiste ao tempo e às transformações sociais. Em parte isto se deve ao cultivo que se faz sistematicamente de um fanatismo do tipo B, que é disfarçado e distinto do tipo A, que é irritadiço quase hidrófobo como o dos muçulmanos. Este tipo de fanatismo B é próprio dos medíocres, sem luz ou pensamento próprios e  se alinha com ideologias, com causas coletivas utópicas, espíritos revolucionários destrutivos que desconhecem totalmente qualquer individualidade.  Militantes através dos tempos têm  enganado e idiotizado as massas entregando-se ao egoísmo grupal de algumas causas genéricas como liberdade, igualdade, fraternidade, abolição, justiça, patriotismo, etc... Mas na verdade esses fanáticos Tipo B não agregam valor a essas causas, nem tais causas agregam automaticamente valor aos militantes. O que eles realmente querem é saquear e se apropriar dos bens alheios, servindo—se, é claro, de uma massa de manobra de militontos e de  idiotas úteis que, como buchas de canhão, não sabem exatamente o que estão fazendo. Assim perde-se a substância, a essência e a virtude das próprias causas. Muitos dos líderes destas causas eram pessoas com graves patologias, que criavam dificuldades de manter transações saudáveis e  deficiências emocionais que impediram seu amadurecimento e os incapacitaram para a vida familiar e para as responsabilidades econômicas estáveis. (Isto sem falar que muitos eram sádicos, pedófilos, dementes, cínicos, compulsivamente mentirosos.) Para fugir deste quadro patológico, ao invés de buscar um equilíbrio  de personalidade saudável, mergulham a fundo numa idealização de pompa e circunstância   para si mesmos, que hipnotiza mentes fragilizadas e as transforma em militantes e revolucionários cegos idólatras do culto a personalidade. O Brasil colonial e imperial tinha ambos os tipos em pequenas quantidades que proliferaram na República.
Antonio José Meirelles 1º  era um puro cético - pragmático que via ser uma falácia o movimento revolucionário abolicionista e procurou agir independentemente, minorando os males dos escravos a que tinha acesso, correndo grande risco de rejeição e de perseguição pelos falcões escravocratas, o que acabou resultando num fim trágico para si e seu irmão. Por outro lado havia percebido que não fazia sentido apoiar ações revolucionárias mal pensadas. Ele inaugurou em família um sentimento de aversão e desprezo por movimentos revolucionários, como os da Revolução Francesa – eram todos visceralmente anti-bonapartistas.  Seu convívio com ingleses moldou  por fim uma visão fundamentadamente negativa da Revolução Francesa, como um delírio que desaguou em um banho de sangue e na ditadura assassina e genocida napoleônica. Admirava e influenciou grande parte da família nesta admiração  pela transformação gradual e descentralizadora de poder típicas da cultura anglo-saxônica. Neste contexto é que se pode entender algumas desmistificações que ele apontou para seus descendentes, justificando sua ação pontual restrita à melhoria das condições de vida dos escravos ao seu alcance.
Eis alguns mitos e fatos sobre a escravidão colonial que constituiram o cenário em que Tomzé viveu.
Mito : A escravidão é um produto do sistema capitalista iniciado pela Inglaterra e um produto da Civilização Ocidental.
Fato: A escravidão é tão ou mais antiga que os registros históricos e universalmente presentes, Portugal foi a potência pioneira nas navegações e na escravização tanto de indígenas quanto de africanos migrados para as Américas.

Mito: Fora da cultura ocidental a escravidão era benigna
Fato: Nestas culturas orientais não havia contenção para evitar tortura, abuso sexual e assassinato sistemáticos, sendo muito mais brutal e duradoura

Mito: Escravatura sempre foi baseada em racismo.
Fato: Só a partir do século XV é que a escravidão se restringiu aos africanos e pelos europeus

Mito: Europeus capturavam diretamente escravos na África                                                                                                                                   Fato: A maioria esmagadora dos escravos era capturada por Africanos ou árabes em ações bélicas.
Mito: Os escravos sofriam lavagem cerebral e quebra de ligações com seu torrão natal para  remoção de sua herança cultural e torná-los dóceis e passivos para serem adaptados aos traços culturais de seus senhores.
Fato: Apesar de alguns terem aceito a nova cultura e mesclado seus traços com a dos dominadores, houve centenas de rebeliões tanto de indígenas quanto de africanos e todavia muito contribuíram  para a formação de todas as culturas atuais das Américas. O colorido de sua influência se percebe em música, dança, decoração, design, cozinha, religião e folclore.

Mito: A maioria dos escravos estava nos Estados Unidos
Fato: 90 % dos escravos estavam no  Caribe e América do Sul com predominância do Brasil (35%)

Mito: A escravidão desempenhou um papel marginal nas Américas
Fato: A escravidão Africana em substituição à escravidão dos silvícolas eram o único remédio para a escassez   de mão de obra  existente nos domínios europeus.                                                                                                                    Fato: A escravidão tornou em negócio altamente lucrativo a mineração de metais preciosos, a produção de açúcar  e aguardente, índigo e tabaco; escravos tanto indígenas como africanos ensinaram aos europeus  como cultivar e consumir batatas, tubérculos nativos como aipim, inhame, cará etc..., feijão, índigo etc...

Mito: A vida de “Plantation” com sua dureza, instabilidade familiar, alta taxa de mortalidade, dificultava a construção de laços sociais.
Fato: Nações africanas e silvícolas persistiram nas Américas em todo o  século XVIII e mesmo em parte do século XIX. 


Como Antonio José 1º previra em seu tempo a abolição estava condenada a ser incompleta no Brasil, por falta de ações afirmativas concretas e gerais. Ele tinha a consciência de que a solução de macro-problemas exigia uma abordagem científica de subdivisão do mesmo em subproblemas de menor porte. O que não estava sequer sendo pensado pelos republicanos e pelos abolicionistas utópicos. Daí derivam várias de suas posturas políticas conflitantes com as das classes senhoriais do século XIX no Brasil, a saber: apoio a descentralização de poder pela autonomia das províncias,  prática de ações pontuais cidadãs sem a formalização legal ou judiciária mas capazes de formar uma jurisprudência o longo do tempo, inclinação para resolução de conflitos pela negociação, suporte a diminuição da escala e extensão de controle do governo central visando estimular iniciativas locais e individuais, etc.... Várias destas idéias-raiz oriundas de Antonio José 1º permearam o pensamento familiar por dois séculos e perduram até hoje silenciosamente.
Como ele antevira, se a abolição fosse feita de forma não planejada a libertação seria incompleta. A abolição final em 1888 lançou cerca de 800 mil escravos na indigência. E apesar de muitos milhares, (estima-se o triplo) já estarem libertos, miscigenados e  encaminhados para sua realização e ascensão social, esta massa de escravos veio a constituir o lumpen proletariat da República. Graças a esta precipitação os indicadores sociais brasileiros ainda hoje comprovam que os negros são mais mal assistidos que a população de origem européia ou parda. Hoje mais de 100 anos depois da Abolição a população negra têm 1,6 ano de estudo a menos que a branca; representa 65,1% das vítimas de homicídios; e sustenta taxa de mortalidade infantil 60% maior que a da população de origem européia ou parda. O racismo foi terrivelmente cruel na República Velha. Era quase como vingança dos escravocratas pela libertação atabalhoada – diga-se de passagem feita pela monarquia impulsionada tanto por progressistas quanto por abolicionistas utópicos- que acabou resultando na queda do regime já abalado irremediavelmente pela Guerra do Paraguai. Não foi criado um código para o negro, como nos EE UU ou África do Sul, mas o apartheid foi eficazmente implantado de forma não declarada, negando oportunidades, marginalizando-os, em posições menos qualificadas.  Se não fossem ações pontuais como as de Antônio José 1º que influenciaram os Amaral e outros ramos familiares, muitos dos nossos parentes mestiços não teriam tido e aproveitado as oportunidades de ascensão  social de que desfrutaram.
Correspondência entre Antonio e Domingos
Estes fragmentos de correspondência entre Antonio José 2 e Domingos José Meirelles – pai e filho - no tempo do exílio  deste último foram coletados e documentados por Antonio Ferreira da Silva Quintella. Estes fragmentos se encontram em manuscritos registrados em cadernos do Santo Inácio, em resmas costuradas de papel almaço e até em páginas de livros   que ele lia no hospital em suas muitas internações. Talvez Antonio FS Quintella planejasse uma peça de teatro que não pode concluir. Não há referência às datas destas cartas na documentação mas certamente se situam entre 1893 e 1896 no tempo do exílio de Domingos. Suspeito também que algumas das sentenças atribuídas a Antonio José 2 podem ser de seu pai, referentes ainda ao Primeiro Império.   Nestes documentos pode-se ver a crítica acerba aos abolicionistas utópicos. Na visão dos autores, os utópicos eram homens infantilizados, responsáveis tanto pela lentidão da transformação gradual de libertação efetiva de escravos, que já estava ocorrendo, quanto pelo açodamento  na abolição em 1888 que lançou cerca de 700 milhares de escravos numa falsa liberdade, por não terem sido educados nem preparados para competir no mercado de trabalho. É bom lembrar que estes dois missivistas eram descendentes de escravos e se orgulhavam de seus ancestrais haverem conquistado sua liberdade e mantido graças à educação.  O seu orgulho em não precisar de  comiseração, nem tratamento ou atenção especial da lei ou outra forma qualquer de vantagem, por sua origem, me fazem lembrar dois gerentes que tive com origens negras mais próximas que as de Antonio José 2 e Domingos José. O Físico Anselmo Sales Paschoa, doutor pela NYU e pesquisador da PUC e CNEN, bem como Osmar Hermelindo Silva gerente da IBM foram profissionais muito bem sucedidos, estimados e respeitados por seus pares, sem nunca terem necessitado de quota protetiva de qualquer tipo, nem menção a sua origem. Competiram em pé de igualdade com seus concidadãos e venceram, sem complexos ou preconceitos.
Não creio que Antonio Ferreira da Silva Quintella concordasse com tudo que coletou. Todavia a seleção dos parágrafos parece ter tido uma intenção que não foi concretizada nem explicitada. Deve ter sido uma de muitas obras incompletas que ele produziu, que contudo ficaram inéditas em virtude de sua longa enfermidade. Até que ponto a autoria é só de Antonio 2 e Domingos não se tem certeza. O mais provável é que haja muitas idéias de Antonio 1 nos trechos de seu filho e seu neto, além das que são reconhecidas como dele. Além disto é possível que haja alguma contribuição estilística e de conteúdo de Antonio Ferreira da Silva Quintella. De qualquer forma é importante ressaltar que nenhum dos Meirelles era contra a liberdade dos escravos, até porque descendiam de pardos e índios. Seus comentários devem também ser lidos levando-se em consideração que estas sentenças foram escritas em cartas informais, entremeadas com assuntos pessoais que foram eliminados. O período é seguramente entre os anos de 1893 e 1896. Portanto eles estavam ainda muito próximos de eventos traumáticos como a Abolição, a proclamação da República, as crises econômicas, as guerras civis e sobretudo a expulsão de Domingos da EMPV,  seu engajamento na guerra, o aprisionamento e por fim o exílio no Uruguai.  O estado de ânimo no país era de grande insegurança e ódio e havia também um arrependimento em muitos setores com a queda da monarquia. Procurou-se manter aqui a ordem que pode indicar o diálogo entre os missivistas. Perderam-se os nomes de alguns dos figurões considerados por eles como abolicionistas utópicos, por isso não são aqui citados. O grande valor das missivas é que lançam luz sobre o que uma parte da sociedade, pouco divulgada, daquela época pensava. (Usou-se a convenção DJM para Domingos José Meirelles, AJM 1 para Antonio José Meirelles 1 e AJM 2 para Antonio José Meirelles 2, para indicar a autoria das citações extraídas das cartas copiadas nos manuscritos de Antonio Ferreira da Silva Quintella)
                                               “...os abolicionistas utópicos não amealhavam nada de prático para                                                              libertar efetivamente os escravos para uma vida frutífera e                                                                        produtiva. Com isso dificultaram  e inibiram o empenho dos                                                                        ativistas concretos que como formigas pacientes educavam e faziam as                                                      alforrias  gradualmente” ( Antonio José Meirelles 2).
                                               “Eles  (os abolicionistas utópicos)  foram  a vanguarda dos ativismos de                                                       sarau, dos republicanos escravistas e dos pozitivistas de gabinete                                                                            passeando sua vaidade e hipocrisia sobre tapetes de veludo, usando                                                         enquanto puderam alguns pobres ingênuos como mascotas e talismãs de                                                                sua arenga enganadora.” (Domingos José Meirelles).
                                               “Havia  entre os famigerados abolicionistas utópicos fazendeiros                                                                  escravocratas, particularmente de São Paulo. Como abonados pervertidos                                                    destruíram a economia do Nordeste e construíram passo a passo, por                                                        décadas a fio, as crises econômicas do país.” (Antonio José Meirelles 1/ 2?)
                                               “ Alarmistas e arautos do fim do mundo eles( aboliconistas utópicos) foram                                                                sim responsáveis pelos erros nos gastos da monarquia, apesar  da                                                                                frugalidade de D Pedro II e da Família Real”. ( Domingos José Meirelles).
                                               “ Inconscientemente eles (os utopistas tinham um impulso suicida, gestado                                                 no ventre de um sentimento de culpa doentio. Narcisistas incontidos                                                 ressumavam remédios mágicos, impensados e destrutivos. Quando                                                             alertados de seus erros, davam de ombros e  diziam – às favas com o                                                          mundo, ele que se fomente-.”  (AJM2)
                                               “Eles (os utopistas) pareciam ser atormentados pelo medo da revolta.                                                          Deliravam esperando que surgisse um Spartacus tropical que                                                                        ensangüentaria e                incendiaria o país.  Assustavam assim os mais covardes                                                 que passavam a apoiar justamente os interesses dos inimigos da liberdade.                                                 Diminuíam o ímpeto dos abolicionistas concretos, os formigas, como seu                                                                pai. Confiavam no espírito danado do demônio indiano chamado Shiva, que                                 tudo destrói, julgando que isto era o princípio da Vida e o início de um novo                                          tempo.” (DJM)    
                                               “Estes abolicionistas utópicos envenenados por objetivos messiânicos, com                                                 desígnios infantis eram na verdade inadaptados aos costumes. Em vez de                                                   buscarem a cura de suas angústias, culpavam os outros por suas                                                                             atribulações. Assim cegos de ver e surdos de ouvir davam vazão a seu ódio                                                      interior em direção ao esgarçamento e à destruição do tecido do Império.                                                    “(AJM1/2?)
                                               “Aos poucos estes malsatisfeitos  com  a vida, desalentados de nascença,                                                    crentes no absolutismo, criaram no povo um espírito letárgico, que permitiu                                             que um grupelho de castrenses mal intencionados, depusesse à sorrelfa o                                                                Imperador, sem qualquer resistência.  Mesmo na Escola da Praia Vermelha                                                              notava-se que os pozitivistas só se preocupavam com a política e teorias,                                                   deixando o adestramento militar em segundo plano.” (DJM)
                                               “ A balda  dos utopistas era culpar os outros por seus problemas e                                                                 angústias. Assim como Adão culpou Eva e Eva culpou a serpente e todos                                                      foram expulsos do paraíso, assim também eles o fizeram. Ao simplificarem                                                              a origem e solução                das mazelas do Império e da escravidão, posando de                                                   santos, incorruptíveis, salvadores do mundo quase paralisaram as ações                                                      libertárias necessárias para o progresso continuado da nação e                                                                      fomentaram as crises ”. (AJM)
                                               Aqui no exílio a nostalgia é bem outra. É a vontade de voltar ao Brasil e                                                       rever tudo  que se ama. Há por aqui os fracos que sucumbem ao alcoolismo,                                         às orgias convertendo-se em genuínos aventureiros, lídimos boêmios,                                                           inúteis desocupados, revoltados contra patavinas. Bons amigos que foram                                                                no passado, hoje se desencaminham em escolhas malfadadas. Graças ao                                                     bom  Deus para mim há os negócios e a música para ocupar a mente,                                                          empregar o tempo e harmonizar os desejos de satisfação dos sentidos, com                                                   as exigências de um comportamento sadio e civilizado. (DJM)

                                               Não é tempo de voltar ainda. Aqui fala-se de revoltas na Bahia, no Ceará,                                                    em Pernambuco em outros lugares. A intenção de Floriano é sufocar com                                                           sangue essas rebeliões e perseguir a todos os oposicionistas como se                                                         estivessem todos prontos a restaurar a monarquia. Aqui se fala também                                                                que quando Moreira César foi consultado para indicar um embaixador em                                                    Montevidéu, indicou um alferes sob o argumento de que seu grande talento                                                era a precisão no tiro de fuzil. Portanto cautela aí no Uruguai e paciência                                                               para aguardar a hora certa de voltar. (AJM2)
                                               Os homens probos e honestos são humildes e percebem que o mundo não é                                                                simples não. Já os utópicos, os florianistas e sua caterva são sabichões,                                                       prepotentes. Na estreiteza de suas idéias e limitações de seu entendimento                                                             se arvoram o direito de impor suas mirabolâncias à força a seus                                                                          concidadãos. Imunes a ouvir críticas e protestos atraem desgraças sem fim.                                                                (DJM) .

Muitas vezes tive que conter cidadãos honrados e pacatos em seu ímpeto  de sacar uma arma quando ouvem os facínoras florianistas proclamando grande amor à humanidade com suas mãos sujas de sangue e sue coração cheio de vilezas.  (AJM2)

Não se pode crer nas autoridades florianistas. O que dizem não é o que praticam. Esses pretensos erradicadores do mal, no seu mundo irreal de   pureza fazem grassar a  mais sórdida corrupção e orquestram massacres bestiais em nome de sua utopia barata. Esses falsos salvadores destroem tudo ao seu redor com seu ócio improdutivo, vagabundagem  locupletando-se num festim de abutres sobre a carniça da pátria. (DJM)

Quando combateram e impediram os negociantes de agir livremente, conspirando e traindo a monarquia eles se esqueceram que foram os resultados destes negócios, destruídos por eles,  que permitem-nos gozar até hoje deste ócio e deste poder de que desfrutam. (AJM2)

Creio que a queda suave da monarquia se deveu à mistura explosiva dos intelectuais arrogantes do abolicionismo utópico com a nata de uma sociedade anestesiada pela culpa e pelo ócio improdutivo. (DJM).

Hoje em dia andar nas rodas  republicanas na Capital é como ir a um bal-masqué, só se vê sandices infuriadas, hipocrisia e inverdades. Há que se munir de muita fleugma para recalcar arroubo selvagens em nome de uma convivência civilizada. Em toda a cidade o clima é muito tenso e paira  uma nostálgica saudade dos velhos e bons tempos do Império. Gostaria de saber em que merceeiro eles adquiriram o monopólio da verdade e da virtude, pois gostaria de encomendar algumas arrobas desta especiaria. (AJM2)

Agora entendo que os ancestrais pardos e índios da família descobriram as chaves para progredir. Dentro do melhor estilo darwiniano adaptaram-se, sobreviveram e ascenderam pelo intercâmbio e adoção cultural sem revolta. Usaram a experiência dos parentes portugueses em negócios internacionais na promoção do multiculturalismo eficaz. Aprenderam com as diversas culturas que conheceram, e  que tinham patamares distintos de desenvolvimento técnico, a usar  seus recursos conforme a necessidade. (DJM)

Creio que os nossos avós índios e pardos souberam abraçar  o que havia de superior na cultura luso-brasileira e  mantiveram os aspectos úteis  e adaptáveis das culturas africanas e indígenas de onde procediam, visando preservar e enriquecer sua identidade e originalidade. Foi esta sabedoria prática de vida que abriu-lhes as portas para ascensão social. Se tivessem abraçado a visão xenofóbica, ou racista, ou de confrontação, teriam deixado como herança familiar a marginalização e a pobreza. (AJM2)

O nosso formigão Tomzé estava coberto de razão ao pregar, desde 1830, que só uma abolição decretada num papel, isoladamente, não traria uma verdadeira libertação e agravaria a miséria de muitos. É claro que não tendo sido inventada por ele, a servidão, e mesmo sendo  uma das vertentes de seus negócios, era percebida racionalmente  por ele como condenada eticamente, economicamente e politicamente no médio prazo e requeria diversas mudanças concomitantes. O sistema inglês indicava o caminho do futuro: criatividade, liberdade para os negócios internacionais, educação em Ciências e Tecnologias, implantação de  indústrias, menos rábulas,  mais engenheiros. Ora tudo isto leva tempo, talvez uma geração ou duas. Por isso ele dizia que uma abolição de sucesso devia ser gradual, sem contar com milagres redentores, sem arroubos românticos, mantendo ao mínimo o negócio de escravos, preparando-os bem para viverem uma vida em liberdade. ( DJM)

Por ocasião deste Natal quero lhe dizer que benditos são os rebentos que mesmo ao serem seduzidos pelas perdições mundanas hesitam, meditando na descalçadora de suas mães se sucumbirem. Bem aventurados os que rebotam e perseveram no caminho dos homens bons. (AJM2)

Mais na Guerra que na Escola Militar aprendi é importante ser comedido e prudente. Os valores de antanho, cultivados no Império parecer despropositados e desatualizados, mas se nestes terríveis tempos de república da espada não forem cultivados por alguns as virtudes de sempre, a nação cairá em descalabro e nos descaminhos do crime, varridas pelos zéfiros enfuriados da irresponsabilidade. (DJM)

Todas os pensamentos têm seqüelas no mundo. Todas as palavras movem o mundo. Todas as obras têm conseqüências no mundo. Todas as conseqüências têm custo no mundo. (AJM1 e 2)

Estes utópicos abolicionistas e republicanos que pregavam um mundo melhor sob a égide de uma “ordem” que traria o “progresso” olvidando-se do” amor”, das tradições, dos sentimentos. Enganando-se e aos outros em seu falso altruísmo, na verdade, são tiranetes na prática. Com seu discurso sonso de liberdade transformam-se em pastores de um rebanho dócil. Filhotinhos de Rousseau, querem  mandar em tudo e todos a ferro e fogo liberando as forças mais terríveis de destruição, fazem muitos incautos caminharem pelas veredas do inferno. Aproveitando-se de que o ser humano é intrínsecamente mau se não for educado para seguir as regras do mundo civilizado provocaram um pandemônio no país.  Mesmo este polimento  e verniz da educação só conseguem conter uma parte dos seres humanos dentro de padrões aceitáveis, mas nunca perfeitos. Tolerar infinitamente  os intolerantes foi o maior erro do Império. (DJM)

Os abolicionistas utópicos, juntamente com os militares pozitivistas se esqueceram de muitas coisas importantes. Para acabar efetivamente a escravidão é preciso secar a fonte de escravos na África, pois mesmo que os cativos tivessem escapado do tráfico negreiro para as Américas, seriam tragados por um destino muito mais cruel e trágico nas mãos dos sarracenos ou dos sobas africanos. Tanto os meus parentes quando os de sua mãe (Anna Osorio do Amaral) não reclamam de maus tratos de seus senhores. Os proprietários de escravos que conhecemos não eram tresloucados para destruir seu “patrimônio”.  Muitos libertos, como os da nossa parentela, com o apoio de seus patrões e dos formigões, foram educados e preparados para ganhar seu sustento e prosperaram. Para os que souberam aproveitar a oportunidade real de ascensão foram bem recebidos pelas famílias de bem. Mas em muitos lugares libertações afoitas só engendraram frustração e revolta atirando magotes de gente na miséria.   (AJM2)

Os nossos antepassados indígenas e pardos perceberam que as grandes idéias ocidentais presentes em parte, ou embrionariamente na cultura luso brasileira, ou pelo menos na cultura britânica influenciando o país seriam o padrão do futuro. O racionalismo, o estado laico, a busca da verdade pela Ciência, o império da lei e da ordem, a igualdade perante a lei, os direitos de todos os cidadãos, a democracia parlamentar eram percebidos por eles como uma grande conquista para todos os povos, etnias e culturas. Para que progredissem sentiram que era necessário darwiniamente adaptar-se aos costumes europeus, pois eles eram melhores para resolver as atribulações da vida do que  aqueles oferecidos pelas culturas pré-históricas dos indígenas e dos africanos. (DJM)

Ora, é sabido que a escravidão não nasceu nem na Inglaterra, nem em Portugal, nem em nenhum  país do ocidente, mas todos os méritos de sua morte lenta no século passado (XIX) devem-se à Inglaterra. Aliás é prudente manter uma boa relação com a velha Albion. Primeiramente por ser a mais antiga e leal aliada dos luso brasileiros. Em segundo lugar porque não é saudável insurgir-se contra a maior potência do momento. O destino de quem provocou a ira dos Romanos foi sempre o mesmo dos Trácios: desapareceram sem deixar traços. (AJM1, 2)
Por muitos e muitos anos no Império após a Guerra do Paraguai, que abalou a Fazenda da União, espíritos fracos foram sendo arrebatados por um romantismo, não conformado, fanatizado que passaram a desejar, em sua visão tresloucada,  a libertação dos cativos, mesmo impensada e a qualquer custo. O desenrolar dos acontecimentos provou que o custo foi elevadíssimo e a amortização desta dívida será demorada e prenhe de sacrifício por muitas décadas. Versos pinturas, arroubos de oratório, exibições narcisistas de donos da verdade utópicos serviram apenas para encobrir a dura realidade de sua ignorância sobre que rumos e percalços teriam que ser enfrentados.  Seres pequenos, místicos e arrogantes em suas presunções grandiosas, pavimentaram a estrada para o precipício. Foi impossível para a mente racional abster-se de um profundo pessimismo, antevendo o que a precipitação promoveria. As feras da realidade, os deuses da guerra e os monstros saídos das trevas devoraram os ingênuos, os bravos, os simples, os gananciosos, os iludidos e também as vítimas negras que deveriam ser salvas. Assim como a Revolução Francesa a Abolição impensada, em plena crise do pós-guerra, desembocou num reino de horror, miséria, enfermidade e sangue. Misticismo e ilusões distorceram a moral e o senso comum, deixando muitas pessoas como que enfeitiçadas por Urizen – a negação de Deus – instalando o caos republicano. (DJM)

Todos os pecados humanos estão contidos e manifestos na escravidão. Mas como toda e qualquer situação pode piorar, o caminho mal pensado, mal traçado, mal planejado será a miséria e a perdição dos que como mortos-vivos ficarem livres de grilhões para serem atirados num mundo infernal e para o qual não estarão preparados. Será como lançar crianças ao mar. (AJM1)


A visão prospectiva dos Formigas foi ignorada, sua visão e seus planos foi obnubilada pelo delírio utópico. Assim a emanação de uma grande nação brasílica se desvaneceu na folia dos insensatos que conseguiu perpetuar de forma disfarçada a escravidão. Essa miscelânea de asneiras  impedirá ou atrasará a concretização do sonho brasileiro. (DJM)
Havia escravos bem tratados e bem nutridos que tiveram filhos libertos e gozaram de uma vida tranqüila e longa em seu cativeiro. Os formigas conseguiam isto para uma minoria que havia sido preparada para a liberdade. E hoje uma década após a Abolição já se vê a fome a miséria, a doença, e a morte prematura,  em muitos dos que foram libertos sem preparo. Enquanto a nau dos insensatos utópicos, escravagistas arrependidos, republicanos pozitivistas sossobra num mar de horrores as águas turbulentas da revolta devora devoram seres humanos e os excretam na lama. (AJM2)




                                
 

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